Sati: um costume chocante da Índia

Pintura do século 18 representando um ritual Sati. Foto: Wikipedia Commons

Se no Ocidente viúvas despertam compaixão na Índia essa realidade praticamente não existe. Vistas como uma fonte de gastos e como símbolos de azar as mulheres sem marido são banidas da sociedade pela forçada da tradição, mas acredite a sua situação já foi bem pior.

Antes do século 19 encontrar viúvas na Índia era uma tarefa difícil. Pela força da tradição elas eram obrigadas a cometer suicídio queimando na pira funerária do marido através de um ritual denominado Sati. O ritual era inicialmente voluntário, porém se tornou obrigatório.

O Sati era considerado uma forma de devoção de uma esposa obediente ao marido morto. Todos da comunidade esperavam essa atitude da viúva. Entretanto nem todas as mulheres tinham a coragem e a devoção esperadas. O que era feito nesses casos?

As mulheres eram simplesmente forçadas a morrerem. Elas podiam ingerir venenos, serem picadas por najas ou terem as suas gargantas ou pulsos cortados por parentes do sexo masculino. Logo depois eram jogadas nas chamas para serem devoradas pelas labaredas.

As origens do Sati são bastante debatidas, mas o mais provável é que o ritual tenha se originado de uma história na qual a deusa Sati, se auto-imolou porque foi incapaz de suportar a humilhação que seu pai impôs ao seu marido Shiva durante uma reunião familiar.

Dados históricos revelam que as mulheres se auto-imolavam para evitar serem escravizadas e estupradas pelos vencedores de guerras.

De acordo com as informações do site Kashgar o Sati é mencionado pela primeira vez em 510 a.C., numa estela da cidade Eran, no estado Madhya Pradesh. E apesar dos brâmanes condenarem a prática ela se tornou popular, especialmente no sul da Índia.

Quando a prática perdeu força na região, ela ressurgiu no norte da Índia, nos estados do Rajastão e Bengala. Entre os séculos 15 e 18, passava pelo Renascimento e pelo Iluminismo o Sati estava no seu auge com 1.000 mulheres sendo queimadas por ano.

Ainda no século 16, o imperador mongol Humayun, que era muçulmano, estabeleceu um decreto real contra a prática por a considerar bárbara. Akbar, o Grande, reforçou as ordens e instruiu os seus homens a tentar a adiar a decisão da mulher pelo maior tempo possível.

Colonizadores portugueses, franceses e holandeses também não apoiavam a prática. Finalmente no século 19 uma campanha anti-Sati foi iniciada pelo Trio de Serampore, composto pelos missionários cristãos William Carey, William Ward e Joshua Marshman no século 19.

Quando o movimento nasceu o Trio consultou diversos teólogos hindus. Os mesmos afirmaram que a queima de viúvas não era ordenada pelas Escrituras Sagradas hindus e que as mulheres sem marido deveriam levar uma vida simples e sem sexo, conhecida Brahmchary.

Durante a campanha anti-Sati o Trio de Serampore enviou investigadores para as aldeias próximas a Calcutá a fim de saber quantas viúvas foram imoladas. Os resultados foram assustados.

Finalmente em 1829, após ouvir um discurso do Trio o então governador geral da Índia Britânica, Lorde Wellesley, sentenciou o fim da auto-imolação por meio de um decreto em 4 de dezembro do mesmo ano. Outras leis complementares foram anunciadas depois.

A parir de então a prática do Sati caiu em desuso, mas ainda não foi totalmente extinta.Um dos casos de Sati recentes ocorreu na vila de Devrala, em 1987 quando Roop Kanwar, de 18 anos, se incinerou na pira funerária de seu marido. Ela estava casada há apenas 2meses.

As reportagens sobre o evento apresentam versões conflitantes sobre o grau de voluntarismo de Kanwar. Segundo alguns informes ela teria sido coagida por seu sogro e cunhado, segundo outros ela se queimou de maneira voluntária.

Em 2009 uma ação rápida dos vizinhos de Sharbati Bai impediu o seu auto-sacrifício. “Não sei o que aconteceu, rezei para que Deus me levantasse daqui e desmaiei” disse a mulher de 60 anos reportagem do RT ao ser questionada sobre o evento.

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