A verdadeira história da Marquesa de Santos a “vilã” da novela Novo Mundo

Marquesa de Santos, por Francisco Pedro do Amaral, c. 1820-29. Agatha Moreira como Marquesa de Santos em Novo Mundo. (Fotos de Recífcio e TV Globo)

Domitila de Castro foi por sete anos amante do imperador d. Pedro I. O caso era do conhecimento de todos e repercutiu nacional e internacional, tornando Domitila uma das principais personagens do Primeiro Reinado, e também uma das mais polêmicas. Porém, sua vida não se resume a esse período…

Domitila de Castro Canto e Melo nasceu em 27 de dezembro de 1797, quando São Paulo tinha pouco mais de vinte mil habitantes e nem cogitava ser uma grande metrópole. Ela era filha caçula de João de Castro Canto e Melo e Escolástica Bonifácia de Oliveira Toledo Ribas, ambos de famílias portuguesas ilustres.

Pouco sabemos sobre a infância de Domitila. Provavelmente ela não teve uma educação formal e completa aprendendo apenas a ler e escrever e fazer cálculos matemáticos básicos. O acesso a educação era bastante limitado na época para grande parte da população e especialmente para as mulheres.

Em 13 de janeiro de 1813, aos 15 anos de idade Domitila contraiu matrimônio com Felício Pinto Coelho de Mendonça, de 23 anos. Ele era natural de Minas Gerais e havia chegado a São Paulo há seis meses. Felício era alferes e fazia parte do Primeiro Esquadrão do Corpo de Dragões de Vila Rica, e prometia ter um futuro brilhante no exército.

Após o casamento, Domitila e seu marido passaram a viver em Villa Rica, Minas Gerais. Os filhos não tardaram em chegar. Uma menina chamada Francisca nasceu no final do ano de 1813 e em novembro de 1816 nasceu um menino que recebeu o mesmo nome do pai. Porém, a vida da marquesa em Minas Gerais não foi um conto de fadas.

Domitila (Agatha Moreira) e Felício (Bruce Gomlevsky) em Novo Mundo. (Foto de TV Globo)

Felício se mostrou um homem violento e abusivo e Domitila cansada de tanto sofrer nas mãos do marido tomou uma atitude audaciosa: retornou a São Paulo com os filhos. Todavia, reconciliou-se com Felício e voltou para os braços do marido. Em 1818 nasceu o terceiro e último filho do casal, João, que faleceu ainda criança.

Porém, engana-se quem pensa que as coisas pararam por aí. A paz entre o casal durou pouco. Após a morte da mãe, o alferes herdou suas terras e falsificou a assinatura de Domitila para vendê-la e assim ganhar dinheiro. Como se isso não fosse suficiente na tarde de 6 de março de 1819, Felício tentou assassinar Domitila a esfaqueando duas vezes.

Domitila conseguiu sobreviver ao atentado, mas Felício acabou preso. Ele alegava que Domitila estava tendo um caso com um oficial chamado Francisco de Lorena. Ela negou tudo. No século 19 os maridos eram autorizados a matar as esposas em casos de adultério, porém, Felício não tinha provas para respaldar as suas acusações.

Mesmo assim ele foi libertado, possivelmente graças as suas conexões. Porém, ele queria a guarda dos filhos e procurava falar diretamente com o rei d. João VI, para resolver a disputa. Todavia, quem resolveria o impasse seria o príncipe regente d. Pedro, que foi deixado no comando do Brasil, após a partida da Família Real em 1821.

D. Pedro encontrou-se com Domitila em agosto de 1822. Estava visitando São Paulo em razão da Bernarda de Francisco Inácio e tentava apaziguar a revolta. Ele tinha 23 anos e estava casado com a princesa D. Leopoldina. Era bonito, vaidoso e de personalidade difícil, mas também encantadora. Já havia tido diversas amantes, nunca foi discreto.

Segundo o historiador Laurentino Gomes em seu livro 1822 “o príncipe passava a cavalo quando cruzou com Domitila sendo transportada por dois escravos numa cadeirinha de arruar”. Exaltando a sua beleza ele decidiu a transportar até em casa. A paixão entre ambos foi fulminante. Teve início uma caso amoroso que iria abalar o Brasil.

D. Pedro I (Caio Castro) e Domitila (Agatha Moreira) em cena de Novo Mundo. (Foto de TV Globo)

Em setembro de 1822 d. Pedro proclamou a Independência do Brasil as margens do Rio Ipiranga. Quando o jovem foi aclamado “o primeiro rei dos brasileiros” no Teatro da Ópera é muito provável que Domitila, já grávida, e sua família estivessem presentes e entoando o Hino da Independência. Um ano depois ela e a família passaram a viver no Rio de Janeiro.

Quando Domitila chegou ao Rio de Janeiro ela estava grávida. Porém, não sabemos qual foi o destino da criança, ela pode não ter nascido viva ou pode ter morrido logo depois do partido, Domitila também pode ter sofrido um aborto espontâneo. Mas o que sabemos , com certeza absoluta, é que a presença da amante do imperador na capital não foi bem vista.

Domitila passou por diversos vexames e humilhações. Em setembro de 1824, cinco meses depois de ter dado à luz uma menina chamada Isabel Maria, Domitila foi impedida de entrar no Teatrinho Constitucional. Na Semana Santa de 1825 teve que assistir missa sozinha na Capela Imperial. Tudo isso aconteceu devido a sua “moral duvidosa”. Em 1827 Isabel Maria morreu.

Em abril de 1825 Domitila foi nomeada dama camarista da imperatriz d. Leopoldina. Este é o ponto de virada de sua história. Até então Domitila era apenas amante do imperador e era alvo de fofocas e olhares furtivos, mas com o título passou a ter o direito – e o dever – de conviver com os soberanos, trabalhando e morando na Quinta da Boa Vista.

A nomeação foi um tapa na cara de todos, mas principalmente na face da imperatriz, que preferia sofrer em silêncio. Domitila, que na altura já estava divorciada formalmente do marido, graças às pressões do imperador, tornou-se então uma figura de notoriedade, sendo mencionada em relatos de diversos embaixadores estrangeiros.

Domitila logo passou a receber em sua casa, sede atual do Museu da Moda Brasileira, a visita de servidores e damas do paço. Políticos também figuravam entre os visitantes. Porém, os mais proeminentes deste último grupo, ou seja, José Bonifácio e seus dois irmãos Martim Andrada e Afonso Andrada não eram simpáticos com a favorita.

Felipe Camargo como o Patriarca da Independência em Novo Mundo. José Bonifácio de Andrada e Silva, por Benedito Calixto, 1902. (Fotos de TV Globo e Wikipedia Commons)

Os irmãos Andrada, os mais influentes membros do governo, responsabilizaram Domitila pelo fim das investigações em torno dos envolvidos na Bernarda. Não sabemos se ela interviu no caso ou se recebia subornos para convencer o imperador a decretar anistia geral, mas sabemos que ela sempre foi acusada de tais atos.

Cinco dias depois do nascimento do futuro d. Pedro II, em dezembro de 1825, Domitila deu à luz um menino. O imperador ficou tão animado que até cogitou a possibilidade de dar ao menino o título de Duque de São Paulo, mas tudo veio água abaixo quando o menino faleceu. Pelo menos o herdeiro legítimo seguia vivo.

Em 11 de dezembro de 1826 d. Leopoldina, aos 29 anos, morreu, provavelmente devido a uma febre tifoide. Domitila pode ter cogitado a possibilidade de tornar-se esposa do amante. Mas as coisas não saíram assim. A relação esfriou. Em suas últimas cartas para a amante ele assinava “seu amo e senhor” em vez de “demonão” ou “fogo foguinho”.

O Atentado da Glória, evento onde a irmã de Domitila, a baronesa de Sorocaba, que também teve um caso com o imperador e deu à luz um filho seu, foi quase alvejada por um tiro desfavoreceu a nossa biografada. O imperador sabia que sabia de seu ciúmes da irmã acreditou que ela fosse responsável pelo atentado, porém, acabou se convencendo que ela era inocente.

D. Pedro I (Caio Castro) cercado por Domitila (Agatha Moreira) e Maria Benedita (Larissa bracher) em Novo Mundo. (Foto de TV Globo)

Porém, o estrago já havia sido feito. De acordo com Paulo Rezzutti em seu livro Domitila: a verdadeira história da marquesa de Santos em determinado momento “o monarca deve ter compreendido que precisava novamente de um modelo que o dignificasse junto ao povo, como Leopoldina fizera até a morte”. As coisas já haviam chegado longe demais. Era a hora de Domitila partir.

Em 1829 Domitila foi enviada de volta para São Paulo, num navio chamado União Feliz trazendo consigo muito mais do que havia levado. Havia ficado rica. Mas longe de chorar pelo leite derrame, ela se encheu de resiliência e decidiu reconstruir sua vida. Em fevereiro de 1830 ela deu à luz a Maria Isabel II.

“Não sabemos como teve início o romance entre eles, mas seus nomes aparecem juntos, como padrinhos de uma menina, em janeiro de 1833” (REZZUTTI, P. 204, 2019). Em junho de 1842 o casal contraiu matrimônio. A cerimônia foi feita em meio ao caos em Sorocaba. Era um período de revolução. Rafael e os liberais haviam se rebelado contra Costa Carvalho e os conservadores que comandavam São Paulo.

Os liberais também haviam levantando armas em Minas Gerais. Os revoltosos tinham cerca de 1.500 homens, enquanto os chamados legalistas haviam enviado para o combate 700 soldados sob o comando do duque de Caxias. Domitila, os filhos e a sogra acabaram se refugiando no convento de Santa Clara.

Rafael Tobias de Aguiar, por Maximiliano Scholz,séc. 19. (Foto de Wikipedia Commons)

Diante da iminência de uma invasão de Caxias, a marquesa com um enxada em mãos cavou a terra a fim de salvaguardar caixas de ouro e de prata da pilhagem. Tudo foi em vão! Caxias não pilhou o local, e sim forneceu uma escolta para acompanhar a marquesa e os filhos de volta a São Paulo.

Em dezembro, Caxias capturou Aguiar em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Ele foi preso na Fortaleza de Laje e em fevereiro do ano seguinte foi transferido para a Fortaleza de Villegaignon. Domitila solicitou permissão do governo para acudir o marido e cuidar de sua saúde. A sua presença foi permitida em Villegaignon.

Um ano depois ele foi libertado após a publicação da anistia geral concedida pelo imperador d. Pedro II. Aguiar e os liberais recebidos em triunfo em São Paulo. Parecia que não haviam sido derrotados. Aguiar seguiria atuando na política. Seria eleito deputado em 1845, 1848 e 1857. Candidatou-se para a vaga de Senador, mas foi preterido pelo imperador.

Em 7 de outubro de 1857 ele faleceu a bordo do navio Piratininga. Sofria de reumatismo e problemas renais. Tinha 63 anos. Domitila aos 60 anos tornou-se uma mulher viúva. Ficou arrasada. Em 1859 sua mãe morreu. Seu pai já havia falecido em 1826. Escolástica foi a primeira a ocupar uma das três sepulturas compradas pela filha no Cemitério da Consolação.

Domitila, como uma das pessoas mais ricas de São Paulo, fez inúmeras obras de caridade. Ela fez doações para a Guerra do Paraguai e para a Guerra da Cisplatina. Auxiliou na construção de hospitais e enfermarias para os pobres e até ajudou a combater a fome em Cabo Verde no continente africano. Também custeou a construção da capela do Cemitério da Consolação.

Marquesa de Santos em torno dos 68 anos de idade. (Foto de Wikipedia Commons)

Conta-se que apesar da idade avançada era uma mulher enérgica e ativa. Adorava bailes, saraus e foi patrona de acadêmicos de direito. Domitila também fazia apostas em corridas de cavalo, recolhendo o dinheiro em sua bolsa. Foi uma liberal convicta até o fim de sua vida e influenciou diversas decisões políticas em São Paulo.

Domitila de Castro Canto e Melo morreu em 3 de novembro de 1867. A velha marquesa, como irmã leiga da Ordem Terceira do Carmo, partiu trajando apenas uma túnica marrom e uma capa amarelo-clara. Foi vítima de enterocolite aguda. São Paulo cobriu-se de luto. Ela foi sepultada no Cemitério da Consolação.


Está matéria foi escrita por Fernanda Flores, com base nas informações coletadas das fontes, que são citadas logo abaixo. A autora permite reprodução e tradução do texto desde que seja citada a fonte e a autoria.


Fontes:

REZZUTTI, Paulo. Domitila: a verdadeira história da marquesa de Santos. 2° ed. São Paulo: Geração Editorial, 2017.

REZZUTTI, Paulo. D. Leopoldina: a história não contada. A mulher que arquitetou a Independência do Brasil. 1° ed. Rio de Janeiro: LeYa, 2017.

GOMES, Laurentino. 1822. Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para não errado. 1° ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

Publicado por Fernanda Flores

Historiadora e pesquisadora brasileira Fernanda da Silva Flores é criadora e idealizadora do blog Rainhas Malditas: Reis e Rainhas que Fizeram História no ar desde 2016 e da página homônima no Facebook lançada em junho de 2018. Tem 22 anos e possui graduação plena na disciplina de História pela Universidade Norte do Paraná. Cursa pela mesma instituição educacional pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar. Seu objetivo é resgatar do campo de interpretações equivocadas e dotadas de forte carga preconceituosa figuras que marcaram época. Seus escritos possuem linguagem moderna e dinâmica para assim atingir o grande público que não tem acesso - ou não se interessa - em trabalhos acadêmicos e científicos. Por meio de suas pesquisas diversos mitos são derrubados, sem, entretanto, cair no erro contrário de enaltecer uma realidade distorcida.

4 comentários em “A verdadeira história da Marquesa de Santos a “vilã” da novela Novo Mundo

    1. Olá Douglas, eu fico muito feliz ao saber que você gostou da matéria. Sim, d. Pedro teve um caso amoroso com Maria Benedita. Obrigada pela audiência.

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