Mulheres no Afeganistão são vítimas do aumento de violência doméstica devido à quarentena

Mulheres com burca com seus filhos em Herat, Afeganistão, em 17 de outubro de 2009. (Foto de Wikipedia Commons)

É de conhecimento público que a violência contra a mulher é endêmica no Afeganistão, um país em guerra há décadas, mas com os serviços de assistência fechados pela quarentena, numa tentativa de evitar a contaminação dos cidadãos pelo coronavírus, a situação tem piorado exponencialmente.

“Muitas mulheres em Herat podem sobreviver ao coronavírus, mas não sobreviverão a quarentena”, afirma a psicóloga de 25 anos Marzia Akbari, que vive em Herat, no oeste do Afeganistão. Akbari faz parte de um pequeno grupo de profissionais de saúde em Herat, que foram a única tábua de salvação para mulheres que enfrentam abuso doméstico nesta região do país.

De acordo com o jornal britânico The Guardian Akbari, todas as manhãs, prestava atendimento via telefone a muitas mulheres vítimas de agressões por semana. Porém, ultimamente quase metade das chamadas está ficando sem resposta e isso é altamente preocupante, pois Herat tem algumas das mais altas taxas de abuso doméstico e suicídio feminino do país.

A Organização das Nações Unidas estima que mais de 50% das mulheres afegãs no país enfrentam abuso doméstico de seus parceiros durante a vida, enquanto Akbari acredita que em Herat quase todas as mulheres são espancadas ou feridas em suas próprias casas pelos parceiros ou parentes do sexo masculino.

Antes da quarentena, Akbari estava trabalhando com seus colegas administrando uma clínica secreta de aconselhamento em um hospital local. Os resultados estavam sendo muito bons. Muitas mulheres afegãs estavam tomando iniciativas – mesmo que isso custasse as suas vidas – e buscando ajuda. Porém, isso não acontece mais, pelo fato da equipe ter perdido o seu local de atendimento.

“O edifício que usamos para fornecer apoio à saúde mental foi transformado em um centro de isolamento de pacientes com coronavírus há cerca de um mês”, diz Akbari. “Tentamos nos mudar para outro lugar, mas a única razão pela qual as mulheres conseguiram nos alcançar antes era porque o centro de aconselhamento estava sediado no hospital local […]”.

Globalmente, os casos de abuso doméstico já aumentaram desde que os países entraram em confinamento, um exemplo é a Índia. Para as mulheres em Herat, agora que a clínica de Akbari está fechada, elas não têm ninguém a quem pedir ajuda. A polícia dificilmente se envolve em casos de violência doméstica, acreditando tratar-se de um tema de cunho família.

“O governo não assumiu praticamente nenhuma responsabilidade pela assistência às vítimas e, de fato, muitas vezes trabalhou intencionalmente para prejudicar o acesso a esses serviços”, afirma Heather Barr, pesquisadora sênior da Human Rights Watch. Embora a violência doméstica tenha sido criminalizada em 2009 pouca coisa mudou no Afeganistão.

Para piorar a situação existe apenas um abrigo para vítimas de violência e abuso doméstico administrado por uma ONG em Herat, mas mesmo antes do confinamento das pessoas em casa, o estigma de deixar sua família e o medo de perder filhos e ataques de vingança geralmente impediam ou dificultavam que as mulheres deixassem suas casas.

Quando as mulheres se dirigiam até a clínica os seus familiares pensavam que elas estavam indo a uma consulta médica comum. Porém, agora a única maneira de alcançá-las é pelo telefone, porém muitas mulheres não têm seus próprios aparelhos e, mesmo aquelas que o possuem sabem que pode ser perigoso receber chamadas na frente de seus agressores.

A história de Zainab é triste. Ela é uma sobrevivente de 25 anos, que sofria abusos domésticos e estupros. A jovem foi casada com seu primo aos 13 anos e se divorciou em 2019 após encontrar apoio na clínica de Akbari. Porém, agora se encontra confinada com os pais que são abusivos. “Por causa do divórcio, eles assumem que ela agora é uma mulher imoral”, diz Akbari.

Pelo menos Akbari está viva, mas outras mulheres não tem a sua sorte. Outra vítimas ainda estão fora de alcance. “Há outra mulher mais velha com quem estou muito preocupada. Ela foi casada à força três vezes com homens abusivos e também enfrenta a violência de seus irmãos”, diz Akbari […] Estou tão preocupada com a segurança dela, afirma Akbari.


Está matéria foi montada por Fernanda Flores, com base nas informações coletadas da reportagem publicada pelo jornal The Guardian: https://www.theguardian.com/global-development/2020/apr/21/domestic-abuse-women-in-herat-afghanistan-may-survive-coronavirus-but-not-lockdown


Publicado por Fernanda Flores

Historiadora e pesquisadora brasileira Fernanda da Silva Flores é criadora e idealizadora do blog Rainhas Malditas: Reis e Rainhas que Fizeram História no ar desde 2016 e da página homônima no Facebook lançada em junho de 2018. Tem 22 anos e possui graduação plena na disciplina de História pela Universidade Norte do Paraná. Cursa pela mesma instituição educacional pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar. Seu objetivo é resgatar do campo de interpretações equivocadas e dotadas de forte carga preconceituosa figuras que marcaram época. Seus escritos possuem linguagem moderna e dinâmica para assim atingir o grande público que não tem acesso - ou não se interessa - em trabalhos acadêmicos e científicos. Por meio de suas pesquisas diversos mitos são derrubados, sem, entretanto, cair no erro contrário de enaltecer uma realidade distorcida.

2 comentários em “Mulheres no Afeganistão são vítimas do aumento de violência doméstica devido à quarentena

  1. Isso é muito triste, parece até que as mulheres não são humanas, não consigo entender uma cultura assim tão repressiva, será que pessoal da ONU não consegue fazer nada para ajudar essas elas?

    Curtido por 1 pessoa

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