A verdade sobre o casamento de d. Pedro e d. Leopoldina

D. Pedro I (Caio Castro) e d. Leopoldina (Letícia Colin), na novela Novo Mundo.  Retrato alegórico de D. Pedro I e D. Leopoldina em Igreja, de1822. (Fotos de TV Globo e contribuição de Daniel Jorge Marques Filho)

Com a reprise da reprise da novela Novo Mundo pela Rede Globo o casamento de d. Leopoldina e d. Pedro volta a ser o centro das atenções. Saiba tudo sobre o relacionamento intimo dos primeiros imperadores do Brasil.

O casamento entre d. Leopoldina e d. Pedro tinha como principal objetivo tirar a monarquia portuguesa da esfera de influência da Grã-Bretanha no início do século 19. Após meses a bordo de um navio atravessando o Oceano Atlântico a arquiduquesa austríaca desembarcou em terras brasileiras em 5 de novembro de 1817.

Se acreditamos nas cartas que d. Leopoldina escreveu a sua irmã Maria Luísa podemos chegar a conclusão que nesse momento ela já se encontrava apaixonada pelo marido que conheceu através de um medalhão enviado por seu sogro, o rei d. João VI, por intermédio do Marquês de Marialva, o responsável pela negociação do casamento.

No mesmo dia de seu desembarque d. Leopoldina, o marido e toda a Família Real Portuguesa se dirigiram a Capela Real, onde o casal recebeu as bênçãos nupciais. Neste momento temos que lembrar que o casamento civil já havia sido celebrado em Viena, na Igreja de Santo Agostinho. Na ocasião D. Leopoldina usou um pesado vestido branco e o noivo foi representado pelo arquiduque Carlos.

Estudo para Desembarque de Dona Leopoldina no Brasil, obra de Jean-Baptiste Debret, 1817. D. Pedro I (Caio Castro) e d. Leopoldina (Letícia Colin), na novela Novo Mundo. (Fotos de TV Globo e Wikipedia Commons)

Após o fim da cerimônia todos se dirigiram para Paço Imperial que não ficava muito distante da Capela. Os dois edifícios ficavam situados de frente para o outro. O jovem casal então apareceu no balcão para ser saudado pelo povo e assistiu uma parada militar. Quando a noite já havia chegado os noivos se transladaram para Quinta da Boa Vista.

Após ser preparada pela sogra e pelas cunhadas d. Leopoldina foi colocada no leito nupcial ao lado do marido. Tratava-se de um costume português. Na primeira noite os noivos eram despidos e lavados pelos sogros, cunhados e cunhadas. Não temos relatos detalhados de como foi a consumação do casamento, mas a julgar pela reação de ambos no próximo dia tudo saiu conforme o planejado.

A partir de então d. Leopoldina e d. Pedro passaram a ocupar uma ala do Palácio de São Cristóvão e em abril de 1819 nasceu o primeiro de seus nove filhos. Era uma menina, que foi batizada como Maria da Glória. O parto foi demorado, se prolongou por cerca de seis horas, e d. Leopoldina em cartas enviadas a sua irmã Maria Clementina afirmou que o cirurgião “quase me dilacerou”.

Somado ao trauma do primeiro parto, nesta mesma época, teve início o desencanto paulatino de d. Leopoldina em relação ao Brasil e ao marido. Ela jamais conseguiu se habituar ao clima quente do Rio de Janeiro e aos mosquitos que picavam sua delicada pele. A gordurosa comida portuguesa também não era de seu agrado.

Se isso não fosse suficiente o Palácio de São Cristóvão também carecia de uma estrutura física adequada. São Cristóvão em nada se comparava ao conforto e esplendor do Palácio de Schönbrunn, local onde d. Leopoldina havia nascido e vivido até a data de seu casamento. As saudades dos familiares queridos também era uma coisa contestante no peito da princesa.

Porém, o que deixou d. Leopoldina mais desolada – um fato que a novela Novo Mundo não retrata – foi o regresso de suas damas austríacas e de sua baba Francisca Annony a Europa. Isso aconteceu março de 1818 logo após a aclamação de d. João VI como rei no Rio de Janeiro. A partir de então a princesa se viu sozinha numa corte que hostil a ela.

Bom, seria mais difícil dizer a quem a corte portuguesa não nutria hostilidade. A família Bragança e os cortesãos que os rodeavam eram conflituosos por natureza própria. Era um terreno espinhoso de se andar. D. Pedro, que era preterido pelo pai por suas ideais liberais, não gostava da irmã mais velha, a princesa d. Maria Teresa, e por isso proibiu a esposa de ser amiga da cunhada.

Palácio Imperial da Quinta da Boa Vista, fotografia de Victor Frond, c. 1858-61. Vista frontal do Palácio de Schönbrunn em Viena. Fotografia de Michael Frankenstein, 1875. (Fotos de Wikipedia Commons).

D. Leopoldina também não desfrutava da mesma liberdade que tinha em Viena. Segundo suas afirmações a corte carecia de distrações e saraus. A nossa querida princesa também não conheceu o Rio de Janeiro como sonhava. Afinal, por vontade do rei e do marido, só tinha permissão para ir à cidade de carruagem por motivo das festas religiosas que lá aconteciam. Segundo os homens eles tinham bons motivos para assim o fazer.

Mas talvez o que mais tenha afetado d. Leopoldina foi a desilusão romântica. Aos poucos d. Pedro foi mostrando a sua verdadeira face. Aquele homem bronzeado de 1,64 de altura, de ombros largos, braços e mãos grandes e que usava costeletas por vezes era impetuoso, inseguro e ciumento. Era difícil agradá-lo. Ele era grosseiro falando o que vinha a cabeça sem pensar nas consequenciais, mas quando percebia que havia passado dos limites pedia desculpas à esposa.

Não sabemos exatamente até que ponto d. Leopoldina influenciou a educação de d. Pedro, que era instruído nessa época por professores esporádicos, ou se ela tentou mudar a personalidade do marido. D. Leopoldina, com sua costumeira resignação suportava tudo calada, apenas se abrindo com as irmãs Maria Luísa e Maria Clementina.

D. Leopoldina foi uma figura de peso no processo de Proclamação da Independência, após a partida da Família Real para a Europa em 1821. Quando d. Pedro deu o Grito do Ipiranga em 7 de setembro de 1822 ela atuava como regente na capital. E ao contrário do que é mostrado na teledramaturgia da Rede Globo ela não assinou nenhum documento proclamando a independência.

Princesa d. Leopoldina (Letícia Colin) assina o Decreto de Independência na novela Novo Mundo. Sessão do Conselho de Estado, por Georgina de Albuquerque, 1922. (Fotos de TV Globo e Wikipedia Commons)

Segundo Paulo Rezzutti, um dos maiores pesquisadores da Família Imperial da atualidade, a princesa não assinou nenhum decreto declarando a Independência brasileira durante sua regência entre agosto e setembro de 1822. “O poder da princesa era limitado, e o que ela decidisse teria que passar pela aprovação do marido”.

D. Leopoldina e José Bonifácio, após se encontrarem com demais políticos numa Reunião de Conselho de Estado na manhã de 2 de setembro enviaram cartas ao príncipe regente o aconselhando a declarar o Reino do Brasil independente de Lisboa, mas uma decisão de tanto peso e relevância coube exclusivamente a ele e a mais ninguém.

Mas não fique triste ou revoltado ao saber dessa informação. O simples fato de d. Leopoldina não ter assinado um decreto de independência não diminui em nada a sua relevância histórica. Ela, de fato, foi a articuladora do processo de Independência. E cumpriu o seu papel. Foi uma soberana de corpo e alma. Ela foi uma perfeita arquiduquesa Habsburgo.


Está matéria foi escrita por Fernanda Flores, com base nas informações coletadas das fontes, que são citadas logo abaixo do texto. A autora permite reprodução e tradução do texto desde que seja citada a fonte e a autoria.


Fontes:

REZZUTTI, Paulo. D. Leopoldina: a história não contada. A mulher que arquitetou a Independência do Brasil. 1° ed. Rio de Janeiro: LeYa, 2017.

REZZUTTI, Paulo. D. Pedro: a história não contada. O homem revelado por cartas e documentos inéditos. 1° ed. Rio de Janeiro: LeYa, 2015.

Publicado por Fernanda Flores

Historiadora e pesquisadora brasileira Fernanda da Silva Flores é criadora e idealizadora do blog Rainhas Malditas: Reis e Rainhas que Fizeram História no ar desde 2016 e da página homônima no Facebook lançada em junho de 2018. Tem 22 anos e possui graduação plena na disciplina de História pela Universidade Norte do Paraná. Cursa pela mesma instituição educacional pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar. Seu objetivo é resgatar do campo de interpretações equivocadas e dotadas de forte carga preconceituosa figuras que marcaram época. Seus escritos possuem linguagem moderna e dinâmica para assim atingir o grande público que não tem acesso - ou não se interessa - em trabalhos acadêmicos e científicos. Por meio de suas pesquisas diversos mitos são derrubados, sem, entretanto, cair no erro contrário de enaltecer uma realidade distorcida.

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