Abuso de crianças é endêmico em madraças no Paquistão

Nesta foto tirada em 29 de setembro de 2018, o refugiado afegão Ashiqullah Jan ensina seus filhos em sua casa em Peshawar. (Foto de Abdul Majeed/AFP)

Muhimman escreve seu nome lentamente, uma letra de cada vez, e sorri quando termina. Ele tem apenas 11 anos e era um bom aluno que sonhava em se tornar médico.

A escola o assusta agora. Há um ano, um clérigo da escola religiosa de Pakpattan, ao sul de Punjab, levou-o a uma lavanderia e tentou estuprá-lo. A tia de Muhimman, Shazia, que pediu para usar apenas o primeiro nome, disse que acredita que o abuso infantil é endêmico nas escolas religiosas do Paquistão. Ela alegou que conhece o clérigo, Moeed Shah, desde que era criança e que ele é um agressor repetido que pediu às meninas que levantassem as saias.

Ele abusou de meninos e também de duas ou três meninas, disse Shazia, que lembrou o caso de um menor tão maltratada pelo clérigo que sua coluna ficou ferida.

Uma investigação da Associated Press encontrou dezenas de alegações de assédio sexual, estupro e abuso físico por clérigos islâmicos que ensinam em madraças, como são chamadas as escolas religiosas do Paquistão, onde muitas crianças pobres estudam. A AP documentou casos de abuso por meio de entrevistas com advogados, policiais, vítimas e seus pais. As supostas vítimas que falaram por este relatório o fizeram sob a condição de que apenas o primeiro nome fosse usado.

Existem mais de 22.000 madraças reconhecidas no Paquistão, com mais de 2 milhões de estudantes. E também muitos que não estão registradas. Elas geralmente são fundadas por um clérigo local em um bairro pobre e atraem estudantes com a promessa de comida e acomodação gratuitas. Não há autoridade central para gerenciar as madraças. Não existe uma instituição mãe que investiga e responda aos abusos dos cleros, como o Vaticano na Igreja Católica.

O governo do primeiro-ministro Imran Khan prometeu modernizar as escolas e exercer mais controle sobre elas, mas elas não estão respondendo a ninguém por enquanto.

A polícia diz que o abuso sexual de menores por clérigos é comum e que as inúmeras queixas que receberam são apenas a ponta do iceberg. Mas até agora nenhum clérigo foi condenado, em parte porque é um setor muito forte no Paquistão e se solidarizam entre eles quando alguém é acusado. Eles conseguem esconder abusos generalizados acusando vítimas de blasfêmia ou difamação do Islã.

As famílias das vítimas são frequentemente forçadas a perdoar os clérigos, segundo Sadiq Baloch, chefe de polícia, que falou em seu escritório no noroeste, perto da fronteira com o Afeganistão.

Oprimidas pela vergonha e estigma que seus filhos sentirão quando adultos, as famílias renunciam às acusações, disse o chefe de polícia. Quando uma família perdoa o clérigo e as acusações são retiradas, a investigação é suspensa.

“É a hipocrisia de alguns desses mulás, que crescem barbas e se tornam piedosos apenas para poder cometer esses atos horríveis a portas fechadas, enquanto criticam aqueles que se barbearam e têm atitudes mais abertas e liberais”, disse Baloch. “Em nossa sociedade, existem muitos indivíduos como esses que afirmam ser religiosos e se envolvem nessas atividades imorais”, completou chefe de polícia.

Meninos não são as únicas vítimas de clérigos. Garotas como Misbah, que é de uma vila profundamente conservadora, Basti Qasi, no sul de Punjab, também são abusadas.

Seu pai, Mohammad Iqbal, não tem certeza da idade de sua filha, pois ele não está acostumado a registrar recém-nascidos. Ele pensa que tem 11 anos.

Misbah diz que foi estuprada na mesquita anexa à sua casa, onde estudou o Alcorão por três anos.

O estupro ocorreu um dia quando ela ficou na mesquita para varrê-lo. As outras crianças se foram e o clérigo, em quem ela confiava, pediu que elea o ajudasse.

Havia começado a varrer quando as portas da mesquita foram fechadas, disse a garota. Ele me arrastou para uma sala. Ela estava chorando e gritando. Ela não sabe quanto tempo durou o estupro. Ela só lembra que estava clamando por seu pai e que o clérigo continuou a estuprá-la.

Foi seu tio, Mohammed Tanvir, quem a resgatou. Ele estava indo para a escola e parou na mesquita para ir ao banheiro. Ele notou um par de sapatos na entrada de uma sala.

Foi lá que ouvi seus gritos chamando seu pai, disse Tanvir. Ele abriu a porta e viu a sobrinha nua no chão. Ela parecia desmaiada, ela relatou. Suas calças estavã ensanguentadas estavam no canto. O clérigo estava de joelhos.

Ele pediu que o perdoasse, ele declarou.

O clérigo foi preso, mas foi solto sob fiança.

Enquanto isso, a tia de Muhimman diz que houve uma conspiração para silenciar a família.

As pessoas da cidade dizem que são nossos líderes espirituais e se recusam a expulsá-lo, disse ela, referindo-se ao clérigo que estuprou sua sobrinha.

Após o episódio, muitos moradores apareceram em sua casa e pediram que perdoasse o clérigo Moeed Shah, que havia escapado e estava escondido.

Eles vieram a nossa casa, sabendo que somos pobres, e nos disseram que ele era um ímã e que deveríamos perdoá-lo, mas não o faremos, disse tia Shazia. Ele acrescentou que seu pai, avô de Muhimman, concordou em não perdoar o clérigo.

Shah não foi detido, apesar do fato de o ataque ter sido filmado por várias crianças que quebraram a porta da lavanderia e interromperam a tentativa de estupro. Assustado, Shah fugiu.

A polícia diz que está investigando e há uma queixa da família do garoto, mas Shah ainda é um fugitivo. Os vizinhos garantem que nenhum esforço seja feito para encontrá-lo. Eles são vistos como enojados, mas estão resignados, convencidos de que não serão pegos.

A tia de Muhimman está desconsolada.

“Animais como ele não deveriam receber compaixão”, Shazia disse.

Fonte:

Abundan los abusos de menores en las madrasas de Pakistán. Disponível em: <https://www.20minutos.com/noticia/272069/0/abundan-los-abusos-de-menores-en-las-madrasas-de-pakistan/&gt;. Acesso em: 30. abr. 2020.

Publicado por Fernanda Flores

Historiadora e pesquisadora brasileira Fernanda da Silva Flores é criadora e idealizadora do blog Rainhas Malditas: Reis e Rainhas que Fizeram História no ar desde 2016 e da página homônima no Facebook lançada em junho de 2018. Tem 22 anos e possui graduação plena na disciplina de História pela Universidade Norte do Paraná. Cursa pela mesma instituição educacional pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar. Seu objetivo é resgatar do campo de interpretações equivocadas e dotadas de forte carga preconceituosa figuras que marcaram época. Seus escritos possuem linguagem moderna e dinâmica para assim atingir o grande público que não tem acesso - ou não se interessa - em trabalhos acadêmicos e científicos. Por meio de suas pesquisas diversos mitos são derrubados, sem, entretanto, cair no erro contrário de enaltecer uma realidade distorcida.

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