Uma vida, mil intrigas: entrevista exclusiva com Cláudia Thomé Witte, a biografa da rainha Maria II

Cláudia Thomé Witte no lançamento de seu livro ‘Maria da Glória, uma princesa brasileira no trono de Portugal’ na livraria Travessa em Lisboa. Ao lado: a capa digitalizada da obra. (Fotos de Arquivo Pessoal e Fundação Casa de Bragança)

Lançado em junho de 2019 o livro Maria da Glória, uma princesa brasileira no trono de Portugal: seus primeiros anos no Brasil, em Inglaterra e em França é uma iniciativa da Fundação Casa de Bragança e aborda a vida de Maria da Glória, a filha primogênita de d. Pedro I do Brasil e sua esposa, d. Leopoldina, a mais famosa imperatriz do Novo Mundo.

Escrito pela Dra. Cláudia Witte a obra de 173 páginas aborda os primeiros anos de vida de Maria da Glória, princesa carioca e segunda mulher a ocupar o trono de Portugal. Infelizmente, apesar de ter uma vida não muito convencional para sua época e de ter sido uma figura de extrema relevância para a formação política de Portugal no século XIX Maria da Glória ainda é uma mulher pouca conhecida.

Talvez a resposta esteja no fato de Maria da Glória ter partido ainda muito jovem do Brasil. A nossa personagem de hoje nasceu em abril de 1819, em São Cristóvão. Foi a filha primogênita de d. Pedro e d. Leopoldina, os primeiros imperadores do Brasil. Três anos após a proclamação da Independência, aos seis anos, Maria foi nomeada Princesa do Grão-Pará, a maior província do Brasil de então.

Porém, o ano seguinte foi amargo para a pequena. Em março de 1826 seu avó d. João VI faleceu abrindo precedentes para uma crise política se instaurar tendo em vista a inviabilidade da possibilidade de d. Pedro, seu pai, governar Brasil e Portugal ao mesmo tempo. Sendo assim ele abdicou em favor de Maria da Glória. Neste mesmo ano, em dezembro, sua mãe faleceu. D. Maria despediu-se de seu caixão aos prantos.

Aos 7 anos Maria da Glória se tornou rainha de Portugal por direito próprio. Porém, seu trono foi usurpado por seu tio, que também era seu noivo. Após abdicar de mais um trono, desta vez do trono brasileiro, d. Pedro arrumou as malas e partiu com a nova esposa, d. Amélia de Leuchtenberg, e a filha adolescente para Europa afim de recuperar o trono perdido. Após uma amarga guerra contra o irmão saiu vitorioso.

Porém, o agora ex-imperador, não viveu muito para desfrutar os louros de suas conquistas. Morreu aos 36 anos de tuberculose no Palácio de Queluz deixando d. Maria da Glória encarregada do governo. O reinado da jovem foi marcado por grandes acontecimentos, como a Guerra Civil, a Revolução de Setembro, a Belenzada, a Revolta dos Marechais, a Revolução da Maria da Fonte e a Patuleia.

Ao longo de sua vida d. Maria da Glória casou-se em três ocasiões diferentes. Os dois primeiros casamentos, com seu tio d. Miguel e Augusto de Beauharnais, o irmão de sua madrasta, não foram consumados. Mas sua terceira união com o duque alemão Fernando de Saxe-Coburgo-Gota gerou onze filhos. A última das crianças ceifou a vida da rainha, aos 34 anos, em novembro de 1853.

Bom, agora que já conhece um pouco da vida de d. Maria II confira logo abaixo a entrevista com a pesquisadora brasileira Cláudia Thomé Witte sobre a sua obra Maria da Glória, uma princesa brasileira no trono de Portugal lançada pela Fundação Casa de Bragança.

RM: Cláudia, primeiramente, muitíssimo obrigado pela sua disponibilidade em responder algumas perguntas para os nossos leitores. O que causou o seu interesse em d. Maria da Glória, uma personagem desconhecida para muitos brasileiros?

Cláudia Witte: A primeira vez que soube da existência dela foi no meu aniversário de 7 anos, quando meu avô me deu de presente uma litografia da rainha dizendo que eu tinha chegado a uma idade de ter juízo, porque com 7 anos, a pequena Maria da Glória já era rainha. Obviamente, nunca esqueci essa história, e desde então, comecei a ter curiosidade pela trajetória dela.

RM: Pode nos contar um pouco sobre o processo de escrita de seu livro?

Cláudia Witte: Eu passei os últimos anos pesquisando sobre a madrasta de d. Maria da Glória, d. Amélia de Leuchtenberg, que foi a segunda imperatriz do Brasil, segunda esposa de d. Pedro. Essa pesquisa me levou a percorrer acervos de museus e arquivos brasileiros, portugueses, suecos, franceses e alemães. Com a quantidade de material e informação que eu juntei, acabei sendo convidada pela Fundação da Casa de Bragança, em Portugal, para escrever sobre a infância e juventude da Maria da Glória. Era o período da vida dela menos conhecido, menos estudado e justamente o que eu melhor conhecia, porque foi a fase em que ela conviveu com d. Amélia.

RM: Durante as suas pesquisas para o livro você descobriu algo inédito ou peculiar sobre d. Maria da Glória?

Cláudia Witte: Várias coisas, entre elas justamente o relacionamento com d. Amélia, que foi a princípio excelente, mas após a morte do pai, através de muitas intrigas da corte, elas acabaram se afastando e apesar de terem retomado a convivência, nunca mais conseguiram resgatar o carinho que tinham no início.

RM: Você pode falar um pouco da infância de d. Maria d Glória e como era o relacionamento dela com os pais d. Leopoldina e d. Pedro?

Cláudia Witte: D. Maria da Glória foi a primeira filha do casal e tanto d. Leopoldina como d. Pedro ficaram encantados com ela e se empenharam pessoalmente na sua criação, o que não era óbvio na época. Tem uma carta em que d. Leopoldina comenta que eles se revezavam o dia todo carregando a filha no colo! Depois percebemos que foi d. Pedro quem se incumbiu de decidir sobre a educação da menina, contratou a preceptora que lhe daria aulas, e convivia muito com ela. Foi uma infância com pais muito presentes e carinhosos.

RM: A princesa brasileira e rainha portuguesa é conhecida por ter tido três maridos (d. Miguel, Augusto de Beauharnais e Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha). Como foi o relacionamento delas com estes homens de personalidades tão diferentes?

Cláudia Witte: O casamento com d. Miguel foi decidido quando ela ainda tinha dois anos de idade e ele dezenove. A união seria uma solução política para que d. Pedro I continuasse como imperador do Brasil e a filha se tornasse rainha de Portugal após a morte de d. João VI. Nesse arranjo, d. Miguel reinaria como regente da esposa-sobrinha em sua menoridade e depois continuaria a apoiá-la. Teria sido uma solução perfeita não fosse pelo fato que d. Miguel tinha ideias políticas próprias e não aceitou ser o marido de uma rainha constitucional. Ele usurpou o trono português e se tornou rei, anulando o casamento que havia sido feito por procuração. D. Miguel e d. Maria da Glória nunca mais se viram desde que ela era bebê.

O casamento com d. Augusto foi um conto de fadas que durou dois meses. Ele era o duque de Leuchtenberg, irmão da madrasta de d. Maria da Glória e se conheceram durante a travessia da Inglaterra para o Rio de Janeiro quando ela tinha dez anos e ele, dezenove. A pequena rainha ensinou português para d. Augusto, conviveu com ele no Brasil durante quase oito meses e possivelmente se encantou com o duque, que era muito bonito e alegre. Cinco anos depois, quando d. Pedro I percebeu que estava morrendo, e com aprovação dela, ele pediu para que d. Augusto se casasse com a filha e se tornasse rei de Portugal para ajudá-la a continuar a obra que o ex-imperador tinha começado. D. Augusto aceitou, eles se casaram pouco antes da rainha completar 16 anos, mas dois meses depois ele faleceu.

Apesar de arrasada com a morte dele, d. Maria da Glória precisava se casar novamente o mais rápido possível para assegurar descendência e com isso garantir estabilidade política. Os diplomatas trataram seu casamento com o candidato preferido pela Inglaterra, um primo do príncipe Albert, consorte da rainha Victoria. Com 17 anos, d. Maria II se casou com d. Fernando, outro nobre alemão. Finalmente, essa união deu certo e eles permaneceram casados até a morte dela. Juntos tiveram onze filhos, dos quais sete chegaram à idade adulta, e viveram um relacionamento muito harmonioso.

RM: Como governante de Portugal, um país em efervescia política em meados do século XIX, como você avalia o governo de d. Maria da Glória, uma das poucas rainhas por direito próprio desse século?

Cláudia Witte: Ela cumpriu seus objetivos. Conseguiu manter o país unido e independente através de muitas revoltas e levantes, modernizou muitas instituições arrasadas pelas guerras do início do século XIX e consolidou a monarquia constitucional, regime idealizado por seu pai. Quando seu filho, d. Pedro V, assumiu o trono após a morte da mãe, Portugal era um país muito mais estável e próspero do que no início do reinado de d. Maria II.

RM: Existem muitos boatos acerca do relacionamento entre d. Maria da Glória e seu primeiro-ministro Costa Cabral? Você acredita que o boato sobre um relacionamento amoroso deriva de uma interpretação errônea da correspondência troca entre ambos?

Cláudia Witte: A correspondência entre eles que chegou até nós se limita a alguns bilhetes sem data, em que geralmente não sabemos o contexto em que foram escritos e demonstram apenas que havia confiança e uma grande informalidade na comunicação. Acho que o grande problema foi a posição de um primeiro ministro que não era a princípio nobre, mas que fez carreira como militar ainda durante a vida de d. Pedro I e depois ascendeu politicamente se tornando a pessoa mais poderosa do reino. Isso despertou inimizades e não é difícil imaginar que boatos envolvendo um relacionamento amoroso com a rainha podem ter sido uma forma de tentar derrubá-lo, ou pelo menos minimizar sua competência profissional.

RM: Você pode traçar algumas características marcantes da personalidade de d. Maria da Glória? Muitos afirmam que ela era corajosa e destemida, falava o que pensava e se parecia muito com o pai.

Cláudia Witte: A correspondência dela mostra que d. Maria da Glória tinha muito senso de humor e conseguia manter o sangue frio mesmo durante situações muito difíceis. Ela realmente falava o que pensava e tinha a mesma franqueza do pai. Aliás, desde pequena, tanto ela se parecia fisicamente com a mãe, quanto puxava a personalidade do pai. Um pequeno exemplo que acho muito ilustrativo foi quando d. Pedro lhe enviou a partitura de um hino que ele tinha composto para ela apreciar e d. Maria da Glória, com 13 anos, devolveu para o pai com modificações e arranjos que ela tinha feito para melhorar a obra! É preciso muita auto-confiança para aprimorar uma composição do pai, ex- imperador e rei!

RM: Após deixar definitivamente o Brasil, em 1831, D. Maria da Glória continuou a manter contato com seus irmãos? Ela sentiu saudades de sua terra natal?

Cláudia Witte: Sim, sempre. Ela trocou cartas com os irmãos toda sua vida e sentia muitas saudades do Brasil, chegando a pedir para que d. Pedro II lhe enviasse comidas e objetos dos quais ela sentia falta.

RM: Em muitos aspectos d. Maria da Glória foi uma mulher “revolucionária”. Conta-se que ela proporcionou uma educação mais humanizada aos filhos e passeava com eles em parques. Ela realmente levou um estilo de vida burguês? Como era o seu relacionamento com o povo português?

Cláudia Witte: D. Maria da Glória foi criada no Brasil, longe da corte portuguesa, em um país que se formava. Morou sem sua família em Londres entre os nove e dez anos de idade, depois viveu por dois anos no exílio em Paris, e chegou em Portugal quando já tinha 14 e muitas vivências que acumulara em todas essas circunstâncias. Isso fez com que ela pudesse romper com diversas tradições que não estavam arraigadas em sua criação. Entre elas, uma vida familiar com mais privacidade e menos cortesãos, uma convivência mais próxima da burguesia, menos protocolos e mais contato com a população. Nesse sentido, ela foi revolucionária, porque até então, os reis sempre tinham mantido uma distância intransponível de quem não fizesse parte da corte. A família real era praticamente mitificada e d. Maria II quebrou essa redoma.

RM: Cláudia, muitíssimo obrigado pelo seu carinho e paciência em responder nossas perguntas. Qual mensagem você teria para as pessoas que estão se interessando pela história de d. Maria da Glória? Onde elas podem encontrar o seu livro? Você teria algum e-mail para contato?

Cláudia Witte: Eu que agradeço o convite e a oportunidade de apresentar essa personagem tão fascinante e pouco conhecida entre nós. Infelizmente, não há ainda meu livro para venda no Brasil. Em Portugal, é possível adquiri-lo diretamente na Fundação da Casa de Bragança, através do email: palacio.vilavicosa@fcbraganca.pt

Publicado por Fernanda Flores

Historiadora e pesquisadora brasileira Fernanda da Silva Flores é criadora e idealizadora do blog Rainhas Malditas: Reis e Rainhas que Fizeram História no ar desde 2016 e da página homônima no Facebook lançada em junho de 2018. Tem 22 anos e possui graduação plena na disciplina de História pela Universidade Norte do Paraná. Cursa pela mesma instituição educacional pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar. Seu objetivo é resgatar do campo de interpretações equivocadas e dotadas de forte carga preconceituosa figuras que marcaram época. Seus escritos possuem linguagem moderna e dinâmica para assim atingir o grande público que não tem acesso - ou não se interessa - em trabalhos acadêmicos e científicos. Por meio de suas pesquisas diversos mitos são derrubados, sem, entretanto, cair no erro contrário de enaltecer uma realidade distorcida.

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