Na quarentena profissionais do sexo da Índia lutam pela sobrevivência

Prostitutas na rua de Bombai (Mumbai), na Índia em julho de 1980. (Foto de Michel Setboun/Gamma-Rapho via Getty Images)

Em decorrência da pandemia do Covid-19 grande parte da população está preocupada com desemprego e falta de dinheiro, porém poucos observam a situação vivenciada pelas trabalhadoras do sexo que dependem diariamente de seus clientes.

Em 26 de março a Índia entrou em confinamento total para conter a propagação do Covid-19. Essa situação afetou gravemente as trabalhadoras do sexo que sem clientes, vem suas economias diminuírem substancialmente. As mulheres não tem dinheiro para comprar alimentos ou itens de higiene básicos para elas e suas filhas.

O jornal britânico The Guardian informa que segundo uma pesquisa da UNAids, em 2016 a Índia tinha 657.800 profissionais do sexo, embora o número real provavelmente seja muito maior. Na Índia ser prostituta não é ilegal, porém atividades de apoio como manter bordeis ou solicitar clientes são crimes.

A maioria dos clientes das trabalhadoras do sexo ganham salários diários e, como milhões de pessoas ficaram desempregadas na Índia, essa clientela desapareceu da noite para o dia. “Os clientes estão assustados porque esse (coronavírus) é uma doença infecciosa. Diga-me quem gostaria de se arriscar?’, diz Rajkumar para a reportagem do Outlook India.

Urmi Basu, fundador da New Light em Calcutá, que trabalha com filhos de profissionais do sexo, também se preocupa com o contagio com Covid-19 “Mesmo quando o bloqueio diminuir, se elas começarem a receber clientes, não há como saber quem está carregando o vírus. Ao contrário do HIV/Aids, um preservativo não pode protegê-las. Como se negocia a segurança nessa situação?”.

As trabalhadoras do sexo na Índia, de acordo com The Guardian, ganham entre 200 e 300 rúpias por cliente e atendem três ou quatro homens por dia. Com seus ganhos, pagam aluguel, serviços públicos e compram alimentos e medicamentos, além de pagar pela educação e cuidar dos parentes. Também existe comissões para donos de bordéis e cafetões.

Em cidades como Delhi, Mumbai e Kolkata, os bordéis estão localizados em áreas de luz vermelha, onde o distanciamento social é impossível. A GB Road de Délhi tem mais de 3.000 profissionais do sexo alojadas em 80 pequenos bordéis. Sonagachi, de Calcutá, conhecida como a maior área de luz vermelha da Ásia, tem entre 8.000 e 10.000 profissionais do sexo.

A GB Road geralmente possuí prédios de dois e três andares com lojas no térreo e bordéis no primeiro e no segundo andar. Neste ambiente a higiene é um desafio, pois o acesso a água corrente é limitado e até 20 pessoas compartilham um mesmo banheiro. As dificuldades economias deixam todos preocupados. “Nem tenho dinheiro para comprar uma bolsa de xampu”, afirma a trabalhadora Sangeeta, de 54 anos.

Também existe uma forte preocupação com o potencial aumento na depressão, ansiedade e, talvez, suicídio. As crianças também serão afetadas. “Quando os adultos estão em conflito, eles passam para as crianças”, afirma Priti Patkar, fundadora da Prerana, uma instituição de caridade anti-tráfico em Mumbai para o The Guardian.

Sem apoio governamental as trabalhadoras do sexo, que são marginalizadas pela sociedade e pela cultura indiana, só podem recorrer a ONGs e instituições de caridade para suprir suas necessidades básicas como comida e medicamentos. Muitas mulheres estão numa situação mais delicada por ser portadoras de HIV e dependerem de terapia anti-retrovirais.

Gupta, que trabalha com a Apne Aap, diz lembrar-se de uma ligação de uma criança de 12 anos, filha de uma trabalhadora do sexo, que afirmou que a família não comia há dez dias. Segundo ela esse tipo de chamada de socorro é comum e vem de todas as áreas do país. O problema é o mesmo: as mulheres não têm dinheiro, não comem há dias e a polícia as força a ficar em casa.

“Mesmo durante o bloqueio, alguns delas procuram desesperadamente clientes para sobreviver. Mas toda a área está fechada. Além disso, as estradas são barricadas por nós. Não permitimos nenhum movimento aqui”, disse um sub-inspetor local sob a condição de anonimato ao Outlook India.

A ONG Apne Aap distribuiu 140.000 pacotes de ajuda em Delhi, Bihar e Kolkata com doações privadas. E a New Light alcançou mais de 1.500 famílias apenas em Calcutá. Os pacotes de ajuda contêm arroz, farinha, leguminosas, especiarias, chá, leite em pó, cebola e batata, sendo o suficiente para alimentar uma família de quatro pessoas por duas semanas, além de conter produtos de higiene.

Os assistentes sociais devem lidar não apenas com a logística de alcançar áreas distantes, mas também com o risco de infecção. Além disso surge outro problema no horizonte.“O verão está chegando; não há renda e profissionais do sexo estão em dívida para sobreviver. Mesmo quando distribuímos mantimentos, recebo ligações dizendo que elas nem têm combustível para cozinhar”, afirma Gupta.

As mulheres também correm o risco de ficar presas em um ciclo interminável de dívidas com emprestadores de dinheiro por parte de agiotas. “As taxas de juros são de 12 a 25% ao mês, o que pode levar anos para ser pago”, diz Tejaswi Sevekari, da Saheli Sangh, uma ONG que trabalha com profissionais do sexo em Pune.

Kiran Ramchandra Deshmukh, de Sangli, Maharashtra, diz que a marginalização das profissionais do sexo as tornou invisíveis. Segundo Gupta ela recebeu telefonemas do governo prometendo repasses e proteção policial durante a distribuição de alimentos as trabalhadoras do sexo, porém isso não aconteceu.

É como se o governo não se importasse. Quando procurados a Comissão Nacional da Mulher e o ministério da mulher e do desenvolvimento infantil da Índia não estavam disponíveis para comentar o o elefante branco em sua sala que representa as trabalhadoras do sexo, a prostituição forçada e o tráfico humano na Índia.

“Estou preocupada com a educação deles (os filhos). Além disso, não tenho dinheiro para comprar leite para eles”, diz Geeta, uma trabalhadora do sexo, que cuida de suas filhas meninas, que frequentavam uma escola próxima da GB Road, que é administrada por uma ONG, em busca de um futuro melhor.


Está matéria foi escrita por Fernanda Flores, com base nas informações coletadas das fontes, que são citadas ao longo do texto. A autora permite reprodução e tradução do texto desde que seja citada a fonte e a autoria.


Publicado por Fernanda Flores

Historiadora e pesquisadora brasileira Fernanda da Silva Flores é criadora e idealizadora do blog Rainhas Malditas: Reis e Rainhas que Fizeram História no ar desde 2016 e da página homônima no Facebook lançada em junho de 2018. Tem 22 anos e possui graduação plena na disciplina de História pela Universidade Norte do Paraná. Cursa pela mesma instituição educacional pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar. Seu objetivo é resgatar do campo de interpretações equivocadas e dotadas de forte carga preconceituosa figuras que marcaram época. Seus escritos possuem linguagem moderna e dinâmica para assim atingir o grande público que não tem acesso - ou não se interessa - em trabalhos acadêmicos e científicos. Por meio de suas pesquisas diversos mitos são derrubados, sem, entretanto, cair no erro contrário de enaltecer uma realidade distorcida.

6 comentários em “Na quarentena profissionais do sexo da Índia lutam pela sobrevivência

  1. Se até a ‘mais antiga das profissões’ está passando por esse momento, quiçá as outras…lamentável a situação dessas mulheres indianas.

    Curtir

      1. O cotidiano atacado pelo vírus revela a olhos vistos as relações desiguais existentes em todas as sociedades do mundo, ao mesmo tempo em que a vulnerabilidade é a primeira vítima. Possamos superar isso com mais humanismo, solidariedade permanente e consciência. O que virá depois vai depender muito da organização da nova sociedade. Muito denso o texto. Muito obrigado. O meu abraço.

        Curtir

      2. Obrigada por seu comentário. Realmente o Covid-19 está expondo as relações desiguais existentes em todas as sociedades, e os principais grupos afetados são as profissionais do sexo e as mulheres, que são vítimas de violência doméstica, sem contar as crianças e adolescentes que são vítimas de violência sexual.

        Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: