A surpreendente história de Eugenia Martínez Vallejo

Estátua de bronze retratando Eugenia Martínez Vallejo “La Monstrua”, obra de Amado González Hevia na rua La Estación, na cidade de Avilés. (Foto de Wikipedia Commons)

Eugenia Martínez Vallejo é literalmente uma das personagens mais fofas da história espanhola. Ela viveu na corte do rei Carlos II, no século 17, e foi uma verdadeira sensação entre os cortesãos. Sua fama se estendeu a tal ponto que até os dias de hoje falamos sobre essa singular personagem.

A biografia de Eugenia Martínez Vallejo é surpreendente, especialmente se levarmos em conta o seu porte físico, que era bastante incomum. Eugenia nasceu em 1674 no meio de uma missa, quando sua mãe Antonia de la Bodega, sentiu as primeiras dores do parto. Conta-se que não houve tempo para transportá-la até sua casa. Ela deu a luz na igreja.

Levando em conta a religiosidade da época, apesar do inconveniente que a situação representou, todos vieram aquilo como sinal de bom augúrio. José Martínez Vallejo, o pai de Eugenia, deve ter ficado muito satisfeito com a filha, pois a mesma desenvolveu um bom apetite, cresceu robusta e saudável.

Devemos lembrar que no século 17 a gordura era vista, tanto pelo senso comum quanto pelos padrões médicos, como algo positivo, pois indicava que a mulher seria fértil. Porém, num determinado momento o excesso de peso de Eugenia se tornou preocupante até o ponto de seus pais se consultarem com um médico.

Todas as biografias de Eugenia apresentam os mesmo dados: com apenas um ano, a menina pesava cerca de 25 quilos e aos seis anos alcançou a incrível marca de cerca de 75 quilos. Nem mesmo uma dieta mais rigorosa foi possível diminuiu o peso da menina, que já era vítima de comentários maldosos por parte dos vizinhos.

Ela também passou a ser discriminada pelas outras crianças, não podendo mais participar de brincadeiras infantis, também devido ao seu sobrepeso. Deste modo os pais de Eugenia acharam melhor manter a pequena oculta dentro de casa. Porém, sua fama já havia se estendido e chegou à corte real.

Detalhe do retrato de Carlos II da Espanha, por Juan Carreño de Miranda, c. 1685. (Foto de Wikipedia Commons)

Interessado por um caso tão peculiar o rei Carlos II ordenou que Eugenia fosse transportada desde Bárcena, onde vivia com a família, até a ele. A partir de então ingressaria num grupo conhecido como gente de placer, que era composto por loucos, bobos da corte, anões e pessoas deformadas.

Eugenia foi cuidadosamente preparada para conhecer o rei. O alfaiate real logo depois de sua chegada ao palácio tirou suas medidas e começou a confeccionar um vestido de gala para ela. Quando Eugenia finalmente ficou cara a cara com Carlos II, o último ficou encantando. Eugenia tinha 6 anos e logo foi apelidada de A Monstra.

Embora isso pareça cruel atualmente, devemos levar em conta o contexto da época. Quando era normal este tipo de comportamento. Noções sobre Direitos Humanos e bullying ainda não haviam sido formuladas.

Ademais a presença da gente de placer na corte espanhola já era uma tradição remontando aos tempos do imperador Carlos V, que tinha por companheiro, desde a adolescência, um anão chamado Perico Santerbas, que não o abandonou até o retiro do monarca no Monastério de Yuste em 1557.

Seu filho e sucessor Felipe II desde muito pequeno se divertiam com bobos da corte e loucos, mas tinha um carinho especial por anões. A mais especial de todos foi a anã Magdalena Ruiz, que era adicta ao álcool e tinha ataques de raiva. Ela chegou até mesmo a fazer parte da comitiva do rei quando ele estava em Portugal e foi frequentemente citada em suas cartas.

Detalhe de Magdalena Ruiz, em tela retratando a infanta Isabel Clara Eugênia, de Alonso Sánchez Coello, c. 1585-88. (Foto de Wikipedia Commons)

Segundo o pensamento do século 17 a gente de placer não possuía maldade, pois sua deficiência física ou problema mental era à vontade Deus. Sendo assim eles não teriam inclinações relacionadas ao poder ou ao dinheiro, como os demais cortesãos, que em muitas ocasiões estavam envolvidos em intrigas e conspirações sempre buscando autopromoções.

De fato, a gente de placer não era remunerada por seus serviços prestados a corte, mas em troca recebiam roupas luxuosas, comida e água gratuitas e consequentemente um local cômodo para viver. Eles também possuíam livre acesso aos reis quando muitos cortesãos considerados sãos esperavam semanas ou meses por uma audiência de 5 minutos.

No caso de Eugenia ela foi um verdadeiro sucesso na corte de Carlos II, que logo a exibiu nas festas palacianas. Eugenia também posou para retratos ao lado de muitas damas que queriam ressaltar seus traços delicados e sua magreza em relação ao aspecto redondo da menina. Todavia, os retratos mais famosos de Eugenia foram aqueles protagonizados por ela mesma.

Segundo o que se conta Carlos II ordenou que a menina fosse imortalizada em telas pelo pintor Juan Carreño Miranda na década de 1680. Os quadros Eugenia Martínez Vallejo, vestida, e Eugenia Martínez Vallejo, desnuda, atualmente estão expostos no Museu do Prado, e são vistos por milhares de pessoas todos os anos.

Os quadros transmitem delicadeza, respeito e naturalidade a Eugenia. Na obra Eugenia Martínez Vallejo, vestida, a menina segura em sua mão esquerda uma maçã, o símbolo universal da tentação, que pode se referir ao seu desejo por comida e sua própria aparência arredondada. Seu olhar é marcante e direcionado ao espectador.

Na segunda obra Eugenia Martínez Vallejo, desnuda, a menina sustenta com firmeza na mão esquerda um cacho de uvas, cujas folhas cobrem suas região íntima. Está representada como deus Baco. Porém, o que mais chama a atenção é o olhar perdido de Eugenia, que transmite certa tristeza e até solidão. Afinal do que Eugenia padecia?

Na esquerda: Martínez Vallejo, vestida. Na direita: Martínez Vallejo, desnuda. Telas de Juan Carreño de Miranda, c. 1680. (Fotos de Museo del Prado)

Atualmente os médicos afirmam que Eugenia pode ter sido afetada pela síndrome de Prader-Willi. Segundo o neurocientista José Ramón Alonso “as crianças com essa síndrome nascem com hipotonia muscular grave e na infância apresentam problemas endócrinos, características faciais dimórficas, estrabismo, alto limiar para dor e atrasos no desenvolvimento”.

Aparentemente Eugenia sofria de miopia, pois ao andar pelos corredores mal iluminados do Alcázar de Madrid percebia, por muitas vezes, apenas sombras e tinha dificuldade em aprender os caminhos o que a levou a cometer muitos erros e cair no choro. Ela também possuía dificuldade em vomitar e tropeça devido ao fato de suas pernas serem muito curtas, o que causava risos na corte.

Porém, a vida de Eugenia não foi feita apenas de tristezas e dificuldades. Ela divertia-se com o bobo da corte Francisco Bazán que durante seu tempo livre fazia coceiras em Eugenia para fazê-la rir. Ele também lhe trazia comida às escondidas para saciar sua fome insaciável.

Detalhe da obra ‘bobo da corte Francisco Bazán’, por Juan Carreño de Miranda. c. 1680. (Foto de Museo del Prado)

Eugenia Martínez Vallejo viveu até os 25 anos quando faleceu em 1699. Seu desaparecimento deve ter causado uma grande tristeza em Carlos II, a quem ela era muito chegada. O rei morreria em novembro de 1700 causando a Guerra de Sucessão Espanhola devido ao fato de não ter deixado um filho varão. O monarca também padecia de defeitos genéticos devido ao casamento consanguíneo de seus pais.

Durante as minhas pesquisas não foi possível encontrar a localização do túmulo de Eugenia. Porém, sua memória segue viva até os dias de hoje. Em 1997 uma grande escultura, de autoria de Amado González Hevia, representando Eugenia, foi assentada na cidade de Avilés, no bairro de Sabugo.

A estátua inclusive já foi o foco de protestos da comunidade transgênero. Em 16 de junho de 2019 a obra amanheceu coberta com óculo, chapéus, guirlandas festivas e pôsteres com mensagens muito claras a favor da diversidade sexual, como: “Ser trans não é ser um monstro”. A mensagem claramente traça um paralelo entre a discriminação que Eugenia e a comunidade transgênero padeceram – e ainda padecem.

Protestos na estátua “La Monstrua” em favor da diversidade sexual. (Fotos do jornal El Comercio)

Na obra intitula “La Monstrua” Eugenia leva o mesmo vestido de gala do quadro Eugenia Martínez Vallejo, vestida. A escultura é uma homenagem ao autor da tela Juan Carreño de Miranda, que nasceu em Avilés em março de 1614, e que imortalizou a menina para a posteridade em quadros que são estão na lista de suas obras primas.


Está matéria foi escrita por Fernanda Flores, com base nas informações coletadas das fontes, que são logo abaixo. A autora permite reprodução e tradução do texto desde que seja citada a fonte e a autoria.


Fontes:

MORENO, César Cervera. Los Austrias: El imperio de los chiflados. 1° edição. Madri: La esfera de los livros, 2016.

Las estatuas de Avilés amanecen con carteles por la diversidad sexual. Disponível em: <https://www.elcomercio.es/aviles/estatuas-aviles-amanecen-20190616131440-nt.html?ref=https:%2F%2Fwww.google.com%2F>. Acesso em 15. mai. 2020.

MARTÍN, Jaime Luis. Eugenia Martínez Vallejo. Disponível em: <https://www.lne.es/aviles/2014/03/02/eugenia-martinez-vallejo/1550827.html>. Acesso em 14. mai. 2020.

ALONSO, José Ramón. La “Monstrua” y el síndrome de Prader-Willi. Disponível em: <https://jralonso.es/2013/11/23/la-monstrua-y-el-sindrome-de-prader-willi/>. Acesso em: 14. mai. 2020.

Eugenia Martínez Vallejo, la llamada ‘niña monstrua de los Austrias’. Disponível em: <https://www.antrophistoria.com/2018/01/eugenia-martinez-vallejo-la-llamada.html?m=1>. Acesso em: 15. mai. 2020.

Publicado por Fernanda Flores

Historiadora e pesquisadora brasileira Fernanda da Silva Flores é criadora e idealizadora do blog Rainhas Malditas: Reis e Rainhas que Fizeram História no ar desde 2016 e da página homônima no Facebook lançada em junho de 2018. Tem 22 anos e possui graduação plena na disciplina de História pela Universidade Norte do Paraná. Cursa pela mesma instituição educacional pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar. Seu objetivo é resgatar do campo de interpretações equivocadas e dotadas de forte carga preconceituosa figuras que marcaram época. Seus escritos possuem linguagem moderna e dinâmica para assim atingir o grande público que não tem acesso - ou não se interessa - em trabalhos acadêmicos e científicos. Por meio de suas pesquisas diversos mitos são derrubados, sem, entretanto, cair no erro contrário de enaltecer uma realidade distorcida.

2 comentários em “A surpreendente história de Eugenia Martínez Vallejo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: