Na quarentena violência doméstica mais do que dobra na Rússia

Uma mulher segura uma faixa que diz “Exigimos uma lei contra a violência doméstica. Ainda não estamos mortos, mas estamos perto”, ela participa de um comício de 25 de novembro de 2019 no centro de Moscou. (Foto de Pavel Golovkin/AP)

Em 2017 a Rússia chocou o mundo ao aprovar uma lei que descriminaliza a violência doméstica. A partir de então estão permitidas agressões as mulheres, desde que não causem “lesões corporais graves”. Com a pandemia do Covid-19 uma quarentena, que está piorando a situação, foi decretada.

A violência doméstica é um monstro silencioso que assola a Rússia moderna. No país a cada 40 minutos uma mulher morre vítima de violência de gênero. Agora, a situação de muitas russas piorou devido ao confinamento com seus agressores devido a medidas para coibir o Covid-19.

O jornal britânico The Guardian informa que os casos relatados de violência doméstica na Rússia mais do que dobraram durante a quarentena, de acordo com o Comissário de Direitos humanos da Rússia. O Kremlin impôs um bloqueio nacional no final de março na medida em que casos de Coronavírus aumentam rapidamente na Rússia.

Em uma carta ao governo, nove organizações não-governamentais pediram às autoridades para montar mais abrigos, instruir policiais sobre a importância de responder às chamadas de violência doméstica e ajudar as vítimas a obter ajuda médica, jurídica e psicológica. Eles também solicitaram que as vítimas fossem isentas de multas e outros tipos de sanções por não cumprirem a quarentena.

Porém, nada foi feito até agora. A violência doméstica tem sido galopante na Rússia há anos, e até agora o governo pouco fez para resolver o problema. Em fevereiro de 2017 Vladimir Putin descriminalizou a violência doméstica após a nova legislação ter sido aprovado pela Duma com 380 votos contra três.

Apesar de ter grandes exemplos de mulheres no poder como Catarina, a Grande, imperatriz que governou a Rússia com mão de ferro durante boa parte do século 18 e elevou o país ao status de potência o inserindo no contexto político europeu, a Rússia é um país historicamente machista e opressor.

De acordo com uma reportagem da agencia France24 a violência doméstica tem raízes profundas na cultura russa que permeia todos os níveis da sociedade e suas instituições. Segundo estatísticas oficiais, datadas de 2008, cerca de 14.000 mulheres morrem a cada ano na Rússia nas mãos de seus parceiros, enquanto cerca de 36.000 são abusadas diariamente.

“A flagrante interferência na família é intolerável”, disse o presidente Vladimir Putin, em 2017, para justificar a nova legislação. Por sua vez, o deputado ultraconservador Vitaly Milonov destacou na mesma ocasião que “estamos falando de conflitos de famílias. Você não deveria olhar para esse problema de um ponto de vista liberal”, numa tentativa de justificar a não inteverência do Estado em casos de violência contra a mulher.

Em 30 de março deste ano, Oksana Pushkina, vice-presidente do Comitê de Família, Mulheres e Crianças da Duma do Estado, anunciou que o país possui cerca de 12 centros de crise para vítimas de violência familiar, porém vários centros de atendimentos foram fechados devido quarentena. A quantidade de centros de atendimentos é ínfima se comparada as proporções continentais da Rússia e a dimensão do problema que a violência doméstica representa.

“Não há estatística oficial sobre isso e não haverá. Ninguém vai contar nada. E enquanto não houver lei sobre a prevenção da violência doméstica, a situação não mudará”, disse a deputada russa Oksana Pushkina à estação de rádio Govorit Moskva. Pushkina é autora de um dos autores do projeto de lei contra a violência de gênero na Rússia, informa o La Vanguardia.

Olga Batalina vai na contramão de Pushkina. “Para nós, é extremamente importante proteger a família como uma instituição”, explicou Batalina a BBC em 2017. A deputada russa foi uma das elaboradoras do infame projeto que descriminalizou a violência doméstica no país e foi sancionado por Putin, um presidente de inclinações conservadoras.

Por enquanto, o panorama na Rússia é desalentador. Durante anos, defensores de direitos humanos e ativistas feministas tentaram garantir reconhecimento e proteção oficiais para vítimas de violência doméstica, mas falharam.

No país de Putin a punição máxima por espancamento é apenas uma multa ou uma noite numa cela. Enquanto o governo decreta medidas para salvar a vida de cidadãos russos impedindo a contaminação por Covid-19 vira as costas para milhares de mulheres, que são diariamente, espancadas e mortas em nome dos valores tradicionais.


Está matéria foi escrita por Fernanda Flores, com base nas informações coletadas das fontes, que são citadas ao longo do texto. A autora permite reprodução e tradução do texto desde que seja citada a fonte e a autoria.


Publicado por Fernanda Flores

Historiadora e pesquisadora brasileira Fernanda da Silva Flores é criadora e idealizadora do blog Rainhas Malditas: Reis e Rainhas que Fizeram História no ar desde 2016 e da página homônima no Facebook lançada em junho de 2018. Tem 22 anos e possui graduação plena na disciplina de História pela Universidade Norte do Paraná. Cursa pela mesma instituição educacional pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar. Seu objetivo é resgatar do campo de interpretações equivocadas e dotadas de forte carga preconceituosa figuras que marcaram época. Seus escritos possuem linguagem moderna e dinâmica para assim atingir o grande público que não tem acesso - ou não se interessa - em trabalhos acadêmicos e científicos. Por meio de suas pesquisas diversos mitos são derrubados, sem, entretanto, cair no erro contrário de enaltecer uma realidade distorcida.

4 comentários em “Na quarentena violência doméstica mais do que dobra na Rússia

  1. Uma covardia, levando em conta aspectos morais, éticos e fisiológicos. Logo a Rússia, um país central, que ao longo dos últimos séculos tem uma participação ativa na história do mundo. Cabe às organizações internacionais pressionarem para rever isso.

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