O trágico fim de uma rainha: a execução de Ana Bolena

Retrato de Ana Bolena, por artista anônimo, c. 1570. Claire Foy como Ana Bolena na minissérie em Wolf Hall. (Fotos de Wikipedia Commons e BBC)

Em 19 de maio de 1536 Ana Bolena, segunda esposa de Henrique e rainha consorte da Inglaterra, subiu ao patíbulo na Torre de Londres para cumprir a sentença que havia recebido em seu julgamento: a decapitação.

Ana Bolena tornou-se rainha da Inglaterra em 1533, após Henrique VIII dar um fim, por conta própria, em seu conturbado processo de divórcio de Catarina de Aragão. Ele afastou a princesa espanhola da corte e cortou laços com a Igreja Católica. Porém, a nova rainha de Henrique não conseguiu cumprir com sua tarefa primordial: gerar um herdeiro varão. Sendo assim Ana acabou caindo em desgraça.

Em 2 de maio a rainha foi presa no Palácio de Greenwich, enquanto fazia uma refeição, e foi informada das acusações contra ela: adultério, incesto e conspiração para assassinar o rei. Ana recebeu a notícia com uma calma surpreendente e foi então levada à Torre por uma barcaça ao longo do Rio Tâmisa pelo mesmo caminho que havia percorrido para se preparar para a coroação apenas três anos antes.

Após treze dias de confinamento na Torre de Londres com apenas a companhia de algumas mulheres, que informavam todos os seus movimentos ao chanceler Thomas Cromwell, um dos principais articuladores de sua queda, Ana Bolena foi julgado no King’s Hall. A sentença foi unânime: ela deveria ser queimada ou decapitada. Henrique VIII acabou optando pela última opção.

Finalmente em 19 de maio Ana Bolena cumpriu a sentença que recebeu. Se levarmos em conta o contexto dramático da situação é altamente provavelmente a possibilidade de Ana ter tido problemas para dormir na noite anterior à sua execução. A rainha pode ter passado a noite em oração, clamando por sua alma e pela vida de sua filha, Elizabeth, de apenas 3 anos de idade e, que agora, era considerada bastarda.

Detalhe de Elizabeth I, aos 13 anos, em tela de William Scrots. (Foto de Wikipedia Commons)

Quando William Kingston, o condestável da Torre de Londres, e responsável por sua segurança, foi aos seus aposentos para pedir que ela se preparasse para a execução, Ana já estava esperando por ele junto de suas damas. A rainha foi escoltada pelo pátio da torre até seu andaime que havia construído dias antes com um semblante imperturbável. Ela estava acompanhada por quatro criadas enquanto seguia Kingston.

Cerca de mil pessoas estavam diante do cadafalso para ver a esposa de Henrique VIII morrer. Ana Bolena subiu os degraus com passos firmes. Ela permaneceu digna e composta durante todo o tempo e pediu a Kingston permissão para falar com o povo. Ana então pronunciou um breve discurso onde afirmava entre outras coisas que “venho aqui apenas para morrer, e assim me entregar humildemente a vontade do rei“.

O discurso final de Ana Bolena é visto por muitos historiadores, como o mais isento possível. É muito provável que ela tenha tomado esse cuidado para assegurar o mínimo de bem-estar a sua filha Elizabeth. Sobre as acusações de adultério, incesto e alta traição ela afirmou em alto e bom tom que: “Não venho aqui para acusar ninguém, nem para falar sobre nada disso de que sou acusada”.

Após finalizar seu discurso com um pedido de orações Ana foi auxiliada por suas damas a tirar o chapéu que usava. De acordo com os testemunhos das pessoas que assistiram seus últimos momentos a rainha trajava um vestido de damasco preto e vermelho forrado com pele, usando um manto de arminho e um capelo inglês. Muitos especulam que Ana tenha optado por usar vermelho em sua execução a fim de exaltar, embora de maneira discreta, a sua inocência.

Detalhe de Henrique VIII, por Hans Holbein, o Jovem, c. 1547. (Foto de Wikipedia Commons)

Logo depois Ana despediu-se de suas damas e entregou ao carrasco francês, chamado Jean Rombaud, um saco com moedas que continha o seu pagamento. Uma parte do dinheiro seria entregue aos pobres ali presentes, num último ato de caridade. Por falar em caridade, ninguém sabe ao certo quem encomendou a vinda de um carrasco francês para a execução da rainha.

Algumas versões afirmam foi a própria Ana que havia solicitado um francês para cumprir a tarefa, por ter vivido muito tempo na França, e por se recusar a curvar-se para morrer. Já outra versões alegam que foi Henrique VIII quem encomendou o executor, em um último ato de misericórdia para sua esposa, pois sabia que em muitas ocasiões os carrascos ingleses precisavam de vários golpes para matar uma pessoa.

Quando Ana finalmente ajoelhou-se na palhaça para receber o golpe do carrasco conta-se que ela murmurava “Ó Cristo, receba meu espírito”, enquanto suas damas, também ajoelhadas e orando, choravam copiosamente. Não sabemos se Ana Bolena foi vendada ou não, mas sabemos que sua cabeça foi decapitada com um golpe limpo, num momento de distração da rainha, que, devido ao grito do executor olhou para o lado oposto de onde a espada vinha.

A multidão, que contava com a presença ilustre de homens como o duque de Norfolk, Charles Brandon, o duque de Suffolk, Henrique Fitz Roy, o duque de Richmond e filho ilegítimo do rei, e o prefeito de Londres assistiram atentamente a cabeça da esposa de Henrique VIII cair no cadafalso. Embora, fosse um costume a cabeça dos executados ser erguida no ar e exibida para a multidão não houve essa cena na execução de Ana.

Sua cabeça foi imediatamente coberta por um lenço branco por suas damas, que ocuparam-se da limpeza do cadáver e o enrolaram num pano branco. As mulheres também ficaram custodiando o mesmo por algumas horas após sua execução, pois os preparativos para o enterro não haviam sido feitos.

Túmulo de Ana Bolena, próximo ao altar-mor da Capela Real de São Pedro ad Vincula. (Foto de Flickr)

Quando finalmente tudo estava pronto o corpo e a cabeça foram depositados em uma arca vazia – um caixão não havia sido preparado – e levados para a capela da Torre de Londres para o enterro. Ana Bolena, a mulher que encarou a morte com uma grande bravura, foi depositada próxima do altar-mor da capela, próxima de seu irmão George Bolena, que havia sido executado dias antes.


Está matéria foi escrita por Fernanda Flores, com base nas informações coletadas das fontes, que são citadas logo abaixo. A autora permite reprodução e tradução do texto desde que seja citada a fonte e a autoria.


Fontes:

FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento E Silva. 2ª ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

Anne Boleyn’s Execution. Disponível em: <https://thetudorenthusiast.weebly.com/blog/anne-boleyns-execution>. Acesso em: 18. mai. 2020.

Publicado por Fernanda Flores

Historiadora e pesquisadora brasileira Fernanda da Silva Flores é criadora e idealizadora do blog Rainhas Malditas: Reis e Rainhas que Fizeram História no ar desde 2016 e da página homônima no Facebook lançada em junho de 2018. Tem 22 anos e possui graduação plena na disciplina de História pela Universidade Norte do Paraná. Cursa pela mesma instituição educacional pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar. Seu objetivo é resgatar do campo de interpretações equivocadas e dotadas de forte carga preconceituosa figuras que marcaram época. Seus escritos possuem linguagem moderna e dinâmica para assim atingir o grande público que não tem acesso - ou não se interessa - em trabalhos acadêmicos e científicos. Por meio de suas pesquisas diversos mitos são derrubados, sem, entretanto, cair no erro contrário de enaltecer uma realidade distorcida.

2 comentários em “O trágico fim de uma rainha: a execução de Ana Bolena

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