Felipe II de Espanha: o nascimento do rei mais poderoso da Europa

Retrato de Felipe II no dia de San Quintín, por Antonio Moro, c. 1560. Carlos V (Álvaro Cervantes) com seu filho, o príncipe Felipe, nos braço em ‘Carlos Rey , Emperador’. (Fotos de Wikipedia Commons e RTVE)

Era uma tarde chuvosa quando Felipe II de Espanha veio ao mundo no Palácio de Pimentel, em Valladolid, em 21 de maio de 1527. Segundo algumas versões caia das nuvens uma chuva torrencial, segundo outras versões a chuva era amena. De qualquer maneira, naquele dia nascia um dos monarcas mais poderosos da história.

Felipe de Habsburgo foi o primeiro filho de Carlos V, rei de Espanha, e imperador do Sacro Império Romano-Germânico, e da infanta Isabel de Portugal, filha do rei d. Manuel I, cognominado “O Afurtunado”. Durante o reinado do mesmo havia se transcorrido a chegada dos portugueses as costas brasileiras em abril de 1500.

Após muitas negociações entre Espanha e Portugal Carlos V contraiu matrimônio com Isabel de Portugal em 10 de março de 1525 no Real Alcázar de Sevilla. A infanta cruzou a fronteira em 27 de fevereiro, e chegou a cidade no dia 3 de março, mas teve que esperar a chegada do imperador, que estava absorvido por seus problemas militares com a França de Francisco I.

A entrada de Isabel em Sevilla foi apoteósica. Ela percorreu as ruas da cidade, acompanhada por seu séquito, e pelos nobres espanhóis enviados para recebê-la, desde o Arco de la Macarena até a magnífica Catedral de Sevilla, passando por sete arcos, que simbolizavam virtudes como prudência, força, clemência, paz, justiça, fé e glória, em meio a aclamação popular.

Carlos já havia sido prometido a diversas mulheres antes de Isabel. Por exemplo, ele foi noivo de Maria Tudor, a filha de Henrique VIII da Inglaterra, e das princesas Cláudia e Luísa de França. Todos os noivados acabaram sendo desfeitos por motivos políticos e uma aliança com os portugueses acabou sendo considerada mais vantajosa.

Retrato de Carlos V e Isabel de Portugal, de Peter Paul Rubens, c. 1628. Blanca Suárez e Álvaro Cervantes em Carlos, Rey Emperador (2015-2016). (Fotos de Wikipedia Commons e RTVE)

Apesar de se tratar de um casamento de Estado conta-se que Carlos ficou profundamente apaixonado pela esposa desde o primeiro momento que a viu, em 10 de março, o mesmo dia de seu casamento. A partir de então Isabel seria a única mulher a reinar no coração do homem mais poderoso da Europa de então.

Com o fogo da paixão não tardou muito para Isabel ficar grávida. O casal passou a sua lua de mel em Alhambra. O anúncio da gestação da soberana foi feita em novembro do mesmo ano, quando a corte se transladava de Granada para Valladolid. O futuro príncipe das Astúrias teria a vantagem de nascer em Espanha, uma vez, que Carlos V, filho de Joana I de Castela e Felipe, o Belo, havia nascido em Gante, em Flandes e, devido a esse fato, havia passado por dificuldades para ser aceito pelos espanhóis quando chegou ao país anos antes.

Devido a precariedade da medicina da época, que não contava com métodos eficientes de intervenção no parto, como uma cirurgia cesariana, que garantisse a sobrevivência da mãe e da criança, e a falta de medicamentos que combatessem infecções, Isabel preparou-se com extrema devoção religiosa para o momento do parto. Prevendo uma possível morte, como era costume, ela até mesmo preparou o seu testamento.

Isabel se encontrava hospedada no palácio, de estilo renascentista, pertencente a Don Bernardino Pimentel, localizado em frente à igreja de San Pablo, quando sentiu as primeiras contrações. O grande momento havia finalmente chegado. Sabemos que o parto durou longas horas, porém, Isabel se negou a demonstrar qualquer sensação de dor, pois acreditava que uma rainha deveria manter a compostura em qualquer situação.

Conta-se que ela ordenou que a maioria dos candelabros da câmara fossem apagados, e cobriu o seu rosto com um véu branco. “Naö me faleis tal, minha comadre, que eu morrerei, mas naö gritarei”, respondeu Isabel aos apelos de sua dama portuguesa Leonor de Mascarenhas, que notando o seu sofrimento pedia que ela exterioriza sua dor a fim de apressar o parto.

No final da contas Isabel de Portugal não cedeu aos pedidos de Leonor de Mascarenhas, e conseguiu trazer ao mundo um filho varão para a felicidade geral da corte e da população, que se aglomerava nas ruas. Felipe II nasceu às três e quinze da tarde, numa terça-feira, após treze horas de trabalho de parto.

Segundo as descrições de seus contemporâneos tratava-se um bebê de aparência frágil e loiro como a mãe. Assim que o príncipe foi lavado e vestido com ricas sedas, o imperador Carlos o pegou nos braços com os olhos cheio de emoção. Isabel havia dado à luz na presença de importantes cortesãos que estavam observando a cena na câmara para desmentir qualquer futuro rumor malicioso que alega-se que a criança havia morrido no parto ou sido trocada por outra.

Fachada do Palácio de Pimentel e placa comemorativa marcando o local de nascimento do rei espanhol no edifício. (Fotos de Antonio Garrido Bahillo e Luis Pasalodos)

Apesar da presença masculina na câmara o protocolo da corte vetava a presença de um médico que pudesse auxiliar no momento do parto, e, consequentemente ver as partes íntimas da imperatriz de modo, que Isabel contou apenas com a presença de uma parteira, mas de renome, chamada Dona Quirce de Toledo, que também a auxiliaria nos partos vindouros.

O recém-nascido foi batizado com o nome de Felipe, em homenagem ao seu avô paterno, ainda que muitos desejassem que ele recebesse o nome de Fernando, em memória do Rei Católico, seu avô por parte materna. Em 5 de junho o pequeno príncipe foi batizado Igreja de San Pablo, de Valladolid. Foi uma cerimônia faustosa e alegre.

As festas, torneios e bailes que se seguiram, e que contaram com a presença de Isabel, ao contrário do batizado, pois o protocolo assim exigia, foram interrompidos quando chegaram as notícias de um evento que estremeceu a cristandade: o Saque de Roma por parte das tropas imperiais. Carlos, assim deixou a alegria de lado, e vestiu luto, assim como sua corte, e todas as comemorações foram suspensas.


Está matéria foi escrita por Fernanda Flores, com base nas informações coletadas das fontes, que são citadas logo abaixo. A autora permite reprodução e tradução do texto desde que seja citada a fonte e a autoria.


GARCÉS, Sofía. Carlos V. – Buenos Aires: Jose Bellesta Editor -.

Reyes, Reinas, Príncipes y Princesas. Isabel de Portugal. Parte III. Disponível em: < https://www.portalsolidario.net/ocio/visu/anecdota.php?rowid=604&anecdotas=Reyes,%20Reinas,%20Pr%EDncipes%20y%20Princesas >. Acesso: 21. mai. 2020.

Así fue la boda de Carlos V e Isabel de Portugal en Sevilla. Disponível em: < https://sevilla.abc.es/tv/series/20151026/sevi-boda-emperador-carlos-sevilla-201510251117.html >. Acesso: 21. mai. 2020.

Publicado por Fernanda Flores

Historiadora e pesquisadora brasileira Fernanda da Silva Flores é criadora e idealizadora do blog Rainhas Malditas: Reis e Rainhas que Fizeram História no ar desde 2016 e da página homônima no Facebook lançada em junho de 2018. Tem 22 anos e possui graduação plena na disciplina de História pela Universidade Norte do Paraná. Cursa pela mesma instituição educacional pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar. Seu objetivo é resgatar do campo de interpretações equivocadas e dotadas de forte carga preconceituosa figuras que marcaram época. Seus escritos possuem linguagem moderna e dinâmica para assim atingir o grande público que não tem acesso - ou não se interessa - em trabalhos acadêmicos e científicos. Por meio de suas pesquisas diversos mitos são derrubados, sem, entretanto, cair no erro contrário de enaltecer uma realidade distorcida.

4 comentários em “Felipe II de Espanha: o nascimento do rei mais poderoso da Europa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: