Toda a verdade sobre Elizabeth Bathory (1560-1614)

Retrato de Elizabeth Bathory pelo artista Zay, final do séc. 16. Anna Friel como a condessa húngara no filme Bathory de 2008. (Foto de Wikipedia Commons e Glogster)

Entre os séculos 16 e 17 uma mulher, de aparência inofensiva, aterrorizou a Hungria. Seu nome era Elizabeth Bathory e suas atividades eram bastantes peculiares. Ela torturava e matava indiscriminadamente as suas criadas. Mas seria tudo isso verdade? Ela matou 630 mulheres? Descubra a seguir.

Elizabeth Bathory nasceu em 7 de agosto de 1560, e possuía uma alta posição na sociedade como um membro da família Bathory, que governava a Transilvânia como um principado praticamente independente da Hungria no século 16.

Durante a infância Bathory foi vítima de epilepsia, que possivelmente era fruto da consanguinidade de seus pais, George e Ana, que eram inclusive primos. Mas, apesar de seus problemas de saúde ela aprendeu a falar latim, eslovaco, alemão e grego.

Segundo relatos ela era bonita e foi bem -educada recebendo uma educação acima da média.

Sem sombra de dúvidas Elizabeth também aprendeu o que toda mulher de alta classe aprendia no período: como ser uma boa esposa e mãe, etiqueta, normas de conduta e como administrar grandes propriedades durante as ausências do marido.

Como era costume na época Bathory ficou noiva ainda muito jovem, quando tinha 10 anos de idade. O escolhido para ser seu marido foi o conde Ferenc Nádasdy, um militar conhecido por seus feitos. A partir de então Bathory se estabeleceu na residência da família de Nádasdy para completar a sua educação.

Segundo uma lenda Elizabeth teria dado à luz uma filha, que foi fruto de um amor proibido com um camponês. Nádasdy ao descobrir a traição teria castrado o homem e o jogado aos cães selvagens. O infeliz morreu e Elizabeth teria sido forçada a se separar da criança, que foi entregue a camponeses.

Conde Ferenc Nádasdy, por artista anônimo, séc. 17, (Foto de Wikipedia Commons)

Seja isso verdade ou não o fato é que Elizabeth, aos 14 anos, se casou com Nádasdy, de 19 anos, em meio a uma grande cerimônia no Castelo de Varannó em maio de 1575, que contou com a participação de 4500 convidados, incluindo a nobreza do reino da Hungria em peço.

Mesmo casada Elizabeth tomou uma decisão que não era muito comum. Manteve o sobrenome de sua família pelo fato do clã Bathory ser mais célebre do que o do marido. Durante os primeiros anos de casamento o jovem casal morou nos castelos de Nádasdy, de Sárvár e de Csetje.

Todavia, Elizabeth passava a maior parte do tempo sozinha devido as constantes atividades militares do marido que estava nos campos de batalha impedindo que os turcos otomanos invadissem a Hungria, e consequentemente a Europa. Em 1578 ele se tornou o principal comandante das tropas húngaras.

Isso não impediu, embora tenha atrasado, o nascimento de filhos. A primeira filha do casal Ana, nasceu em 1585. Ela foi seguida por Ursula em 1590, por Catarina em 1594, por András em 1596 e por Paul nascido em 1598. Algumas crônicas também indicam que Bathory teve outros dois filhos Miklós e George, que teriam morrido durante a infância.

Segundo a versão mais conhecida usada para explicar a origem da violência de Elizabeth se conta que ela aprendeu métodos de tortura que seu marido usava nos inimigos turcos. É praticamente um consenso geral entre os historiadores: foi o próprio marido que a ensinou técnicas de tortura por cartas.

Solitária e com um poder limitado sobre seus servos Elizabeth começou a empregar punições corporais severas sobre aqueles que desobedecessem suas regras. Com o passar do tempo a condessa se tornou mais cruel. A partir de um determinado momento qualquer coisa poderia chateá-la.

Talvez um dos principais fatores que tenha levado Elizabeth a perder a mão era o sentimento de impunidade que reinava entre a nobreza que era protegida pelas leis feudais que ainda estavam em vigor na Hungria.

Além do mais o rei Mathias II devia ao casal uma astronômica soma de dinheiro que havia tomado emprestado para custear a guerra contra o Império Turco Otomano.

Segundo o livro Lady Killers: Assassinas em Série, escrito por Tori Telfer, Nádasdy ensinou a esposa a “enrolar um pedaço de papel oleado, colocá-lo entre os dedos dos pés de uma criada desobediente e, em seguida, incendiar o papel”. Elizabeth também usava uma luva com garras afiadas para cortar suas servas.

As coisas só pioravam. A condessa também colocava fogo nos pelos pubianos das jovens, e durante o inverno ordenava que elas ficassem nuas e se banhassem com água gelada no meio dos campos. No verão a modalidade de tortura mudava. As jovens eram despidas e untadas com mel para serem picadas por insetos.

Elizabeth Bathory em sua seção de tortura, tela de István Csók, c. 1893. (Foto de Dead Jack)

Mordidas em seios e rostos eram corriqueiros. As servas também eram vítimas de queimaduras com ferro em brasa e moedas quentes. Quando alguma mulher errava um ponto de costura Elizabeth também costumava inserir agulhas em baixo das unhas das mesmas como punição.

Num determinado momento Elizabeth passou a espancar pessoalmente as suas criadas. Em 1601 uma misteriosa mulher chamada Anna Darvulia, e com fama de bruxa, aparece na história. Segundo o que se conta Elizabeth se tornou mais sombria e adepta de rituais místicos devido a sua influência.

Em janeiro de 1604 Nádasdy morreu e Elizabeth se viu viúva aos 44 anos. Antes de partir sabemos que o militar pediu ao seu primo, George Thurzó, que cuidasse de sua esposa. Ironicamente seria Thurzó quem lideraria a investigação dos crimes de Bathory.

Mesmo sendo detentora de muito poder e dinheiro a situação tornou-se insustentável após a morte de Nádasdy. O desaparecimento de criadas não passava despercebido nos povoados que cercavam os seus castelos e as criadas de Bathory eram vistas machucadas com frequência.

Nem mesmo as desculpas de epidemias, que estranhamente só ocorriam dentro dos castelos, e suicídios convenciam mais. Para piorar a situação Elizabeth se tornou descuidada. As covas onde as jovens eram enterradas eram tão rasas que continuamente os cachorros apareciam com pedaços de carne humana.

Como Bathory não conseguia mais contratar servas por causa de sua má fama ela decidiu abrir uma escola, chamada de Gynaeceum, para treinar jovens damas da nobreza. Além de fornecer um bom lucro financeiro para a condessa a escola também fornecia novas vítimas. Mas o projeto se revelou um grande erro.

Obviamente matar filhas de nobres não era uma boa ideia. Após o desaparecimento das jovens as autoridades finalmente decidiram agir. Convencido das atividades macabras de Bathory o rei Mathias II ordenou o início de uma investigação em fevereiro de 1610.

Quando o já citado Thurzó e seus homens chegavam as propriedades de Bathory encontravam os camponeses acuados, muitos enterros acontecendo e perceberam que os castelos eram fortemente protegidos. Conforme as investigações prosseguiam vieram à tona terríveis relatos sobre a violência de Elizabeth.

George Thurzó, Palatino da Hungria, litografia de artista desconhecido. (Foto de Wikipedia Commons)

Todas as evidências colocavam Bathory no banco dos réus e em 30 de dezembro do mesmo ano Thurzó e seus homens adentram o castelo de Csetje e encontraram diversas jovens em estado lastimável. Elizabeth alegou inocência, mas no dia seguinte foi recluída em seus aposentos.

Anteriormente Thurzó havia debatido como proceder com a condessa com o filho da mesma, Paul, e seus dois genros. Inicialmente os homens pensaram em colocar Elizabeth num convento, mas finalmente eles optaram por prisão domiciliar para evitar um escândalo ainda maior. A condessa não compareceu ao seu julgamento.

Elizabeth não agiu sozinha. Ela estava cercada por uma trupe macabra. Todos foram punidos. A ex-enfermeira de seus filhos Ilona Jó, a bruxa Dorka, que subsistiu Darvulia após a morte da mesma, e o anão Ficzkó receberam a pena de morte.

As duas mulheres tivéramos seus dedos arrancados e foram jogadas na fogueira. Ficzkó foi decapitado e também teve o corpo queimado. Catarina, uma jovem lavadeira, foi posta na prisão. Por sua vez Elizabeth foi encontrada morta em 21 agosto de 1614. Não demonstrou arrependimento.

Qual foi a origem de tanta violência? Não sabemos. Algumas lendas afirmam que Elizabeth testemunhou eventos terríveis durante a infância, mas não temos nenhum respaldo histórico para embaçar essas lendas.

Também devemos nos atentar ao fato de que as histórias envolvendo os supostos banhos de sangue que a condessa tomava para rejuvenescer surgiram um século depois de sua morte, e foram baseadas em relatos folclóricos de camponeses.

Aparentemente tais relatos surgiram como uma maneira de encontrar uma força motriz que explicasse o porquê de sua crueldade. Talvez Elizabeth só tenha perdido a mão com as suas punições corporais. Nem todo maldade tem uma explicação.

Mas afinal quantas pessoas Elizabeth Bathory assassinou? Os números mais extravagantes chegam a 630 mulheres, mas novamente nos deparamos com um sério problema: não existe nenhum documento que comprove essa afirmação. O suposto diário que conteria o nome de 630 pessoas nunca foi encontrado.

Tendo isso em vista atualmente os historiadores calculam que Elizabeth tenha matado cerca de 150 ou 200 pessoas. O que já é um número bastante vultuoso. Elizabeth foi sepultada em Ecsed, na cripta da família Báthory. A localização do seu corpo hoje é desconhecida.

Fontes:

TELFER, Tori. Lady Killers: Assassinas em Série. Tradução de Daniel Alves da Cruz. 1° ed. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2019.

SHERMAN Elizabeth. The Disturbing True Story Of Elizabeth Bathory, The Blood Countess. Disponível em: <https://allthatsinteresting.com/elizabeth-bathory-true-story>. Acesso em: 22. jun. 2020.

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