Resenha (com spoiler) de Meu Adorado Pedro

Capa do livro Meu Adorado Pedro: romance baseado na vida de dona Leopoldina. Foto: Arquivo Pessoal)

Lançado em 2001, escrito por Vera Moll, e publicado pela Editora Bom Texto, o romance Meu Adorado Pedro aborda a vida e as tristezas da imperatriz d. Leopoldina, a primeira esposa de D. Pedro I, e mãe do imperador d. Pedro II, que reinou no Brasil por quase 50 anos.

Porém, Leopoldina não deve ser lembrada essencialmente por ter sido uma mãe e esposa e sim por seus próprios feitos. Ao lado do santista José Bonifácio de Andrada e Silva ela foi uma das principais figuras que arquitetaram a Independência do Brasil, que era uma colônia portuguesa desde 1500.

A narrativa se inicia em 1817 quando Leopoldina já conta com 20 anos e toma conhecimento da notícia que um casamento lhe foi arranjado. O escolhido foi o príncipe herdeiro do riquíssimo império de Portugal, o príncipe d. Pedro de Bragança.

O futuro esposo é descrito pelo marquês de Marialva, o encarregado português de tratar das negociações matrimoniais, como o mais polido dos príncipes. O embaixador até chega a afirmar para a princesa em sua primeiro encontro que d. Pedro é um entusiasta de mineralogia, um dos campos de estudo preferidos da arquiduquesa.

Tendo isso em mente, aliada a descrição extremamente positiva da aparência física do pretendente, não é de se espantar com o fato que Leopoldina tenha caído de amores pelo homem que estava do outro lado do mundo, antes mesmo de conhecê-lo.

O encontro entre os cônjuges finalmente aconteceu em novembro de 1817, mais precisamente no dia 05, após Leopoldina encarar uma travessia pelo Oceano Atlântico que durou três longos meses.

Em terras tupiniquins as ilusões que Leopoldina havia fomentado em sua fértil e romântica imaginava vieram água abaixo. A realidade da corte, do comportamento, não muito contido do marido, que está acostumado a ter tudo do seu jeito, e das disputas familiares por poder e influência era mais duras.

Porém, o Rio de Janeiro, não decepcionou a nossa protagonista. A paisagem é de tirar o fôlego. Realmente a sede da coroa portuguesa era tudo aquilo e muito mais do que foi descrito pelos viajantes e exploradores que já haviam pisado aquelas exóticas terras.

Além da paisagem exuberante o Brasil também é um paraíso para expedições cientificas devido a sua fauna e flora riquíssimas e ainda inexploradas. Leopoldina sabe disso, e não perder a oportunidade. Coleta diversos minerais.

Enquanto o tempo passa Leopoldina vai ando à luz a diversos filhos, que acabam se tornando uma das principais razões de seu viver. Numa corte que tem a equitação e a música como os seus entretenimentos elementares Leopoldina sente falta de liberdade e de poder dançar um valsa de vez em quando.

A escravidão, os mosquitos, o calor abrasador e a falta de infraestrutura básica da Quinta da Boa Vista, onde reside a Família Real, lhe incomodavam sobremaneira e são constantemente tema de suas conversas nas cartas que envia a irmã Maria Luísa, a viúva de Napoleão Bonaparte.

Mas o que mais incomoda – ou melhor – magoa a princesa são as traições descaradas do marido com as mais diversas mulheres das mais variadas classes sociais.

Com um escrita simples, porém elegante, e doce, ao ponto de tornar-se comovente Moll consegue captar a tristeza da princesa, e os motivos de sua não-reação diante das humilhações que lhe são impostas dia após dia.

Após 1822, depois da Proclamação da Independência, as atitudes de d. Pedro se tornaram mais arbitrárias. O agora imperador manda trazer de São Paulo Domitila de Castro Canto e Melo, uma mulher de cabelos e olhos negros, com quem começa um duradouro relacionamento amoroso.

Um dos pontos que mais me agrada nessa obra foi o fato da autora ter inserido Domitila na narrativa já nos últimos capítulos. As cenas da paulista são poucas e breve, de modo que Leopoldina se torna realmente a protagonista de romance.

Todo o sofrimento da agora imperatriz fica evidente quando a mesma chora em sua cama entre soluços, após ver a recém-nomeada marquesa de Santos andando no convés do navio, que leva a corte a Salvador, de braços dados com d. Pedro e d. Maria da Glória.

A apatia de Leopoldina chega a irritar o leitor. Vera Moll também é uma personagem do livro. Em diversas cenas do romance ela transportar-se do século 21 para o século 19 e mantém diversos diálogos com a protagonista.

De uma maneira contundente, e até com palavras duras, ela exorta Leopoldina a tomar um posicionamento indicando que o maior culpado daquela situação é o próprio impedor. Todavia, Leopoldina reluta em aceitar isso e joga todas as culpas sobre pessoas próximas do marido como Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, Plácido da Silva e a própria Domitila.

Em sua vã ilusão Leopoldina acredita que tudo aquilo passará. Até mesmo as dificuldades econômicas e as constantes críticas e fofocas das damas portuguesas da corte, que inclusive causam a destituição da inglesa Maria Graham do cargo de tutora de seus filhos, que são acompanhadas de uma constante vigilância, são suportadas com resignação.

A morte do pequeno filho d. João Carlos, é um dos pontos mais marcantes do romance, porém a morte mais comovente da trama é a morte da própria Leopoldina. Qual é o motivo da morte? Leiam o livro para saberem…

Após uma grande agonia a imperatriz mais amada do Brasil e cujo o legado até os dias de hoje é cultuado pelos brasileiros falece na manhã do dia 14 de dezembro de 1827. Qual é a sua ultima atitude de Leopoldina? Reencontrar-se com o seu adorado Pedro num sonho.

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