Irã pressiona psicólogos a evitar discussões públicas sobre violência contra mulheres

Hassan Rouhani fala durante a inauguração do novo parlamento em Teerã, Irã, quarta-feira, 27 de maio de 2020. Romina Ashrafi, foi decapitada pelo pai 14 anos em nome da honra. (Fotos de AP e Mídias Sociais)

Instituições estatais no Irã estão pressionando os profissionais de saúde mental para evitar questões polêmicas, como assassinatos de honra e violência contra mulheres e casamentos infantis nas redes sociais, para evitar controvérsias sobre as leis da sharia.

Uma psicóloga que não pode ser nomeada por sua própria segurança disse à Rádio Farda que recentemente um colega de destaque com grande número de seguidores nas mídias sociais perdeu sua licença para praticar, porque discutira extensivamente essas questões em suas contas nas mídias sociais.

Segundo ela, outros profissionais de saúde mental receberam avisos por colaborar com ativistas feministas em lives no Instagram, nas quais foram discutidas questões como igualdade de homens e mulheres e conceitos culturais como honra masculina e controle sobre familiares do sexo feminino.

Ela diz que foi impedida de falar em uma reunião com oficiais da organização de assistência social sobre o assassinato de Romina, uma menina de 14 anos que foi morta por seu pai n Irã em junho. “Disseram-me para parar de falar quando disse que os futuros pais devem ser obrigados a participar de cursos sobre criação de filhos e oficinas sobre educação sexual para crianças”.

“Isso significa que mulheres e meninas podem ser mortas e todos são obrigados a ficar calados sobre essas brutalidades”, diz ela.

Os recentes assassinatos por honra – três em menos de um mês – indignaram os iranianos e se tornaram um tema polêmico nas mídias sociais, com muitos culpando o governo islâmico por políticas de punição leve para os culpados.

A discussão desses assassinatos preocupa as autoridades. Tais discussões e a simpatia do público com as vítimas levam a discussões sobre as leis e tradições religiosas que sancionam tais assassinatos ou pelo menos permitem que o assassino seja libertado ou receba uma punição leve. Muitos agora estão fazendo campanha para mudar as leis para evitar essas tragédias.

Segundo a lei da República Islâmica, um pai que mata seu filho não é considerado um assassino e não é punido com a morte. De acordo com as leis da sharia que formam a base do Código Penal do Irã, o pai tem um “direito de sangue” para seus filhos. Se os filhos de um homem são mortos, ele pode exercer o direito e perdoar o assassino ou exigir dinheiro de sangue para renunciar ao seu direito a qisas (pena de morte como retaliação em espécie) ou insistir para que o assassino, mesmo que menor de idade, seja enforcado pelo assassinato.

Da mesma forma, matar uma esposa pode ficar impune em alguns casos. De acordo com o artigo 630 do Código Penal Islâmico do Irã, um homem que matou sua esposa será libertado se puder apresentar quatro testemunhas de seu adultério. As mulheres, não gozam do mesmo direito se encontrarem o marido na cama com outra pessoa.

Na realidade, provar um caso de adultério é mais difícil do que possa parecer, mas o fato de a lei ficar do lado do homem é uma questão que os defensores da sharia acham difícil de justificar. Além disso, os tribunais e juízes nomeados pelo sistema de justiça islâmico costumam ser muito tendenciosos a favor dos homens e geralmente tomam o seu lado na ausência de júris.

A República Islâmica Teocrática do Irã encontra-se, portanto, em desacordo com psicólogos e profissionais de saúde mental, que muitas vezes precisam questionar leis e tradições religiosas estáticas que toleram a completa obediência de crianças e mulheres aos homens.

Saeed Payvandi, um sociólogo de Paris, diz que esta situação é um impasse ideológico porque paralisa os cientistas de oferecer soluções científicas para remediar crises sociais e faz com que aceda às regras estabelecidas pela religião.

Com informações de Radio Farda

2 respostas para ‘Irã pressiona psicólogos a evitar discussões públicas sobre violência contra mulheres

  1. GEORGE FERRAZ PEREIRA

    Aí fica difícil ir contra as leis de um estado teocrático, especialmente mulçumano. Essa luta por igualdade nos países mulçumanos será longa…

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