Novo Mundo: o que é real e ficção no romance de Domitila e d. Pedro

Domitila de Castro (Agatha Moreira) e d. Pedro I (Caio Castro) em Novo Mundo. Foto: TV Globo

Com a reprise de Novo Mundo a personagem Domitila de Castro e seu romance com d. Pedro, um dos protagonistas da novela, voltou a ser um tema polêmico. Saiba o que é real e ficção no caso amoroso que abalou o Brasil.

Tudo começou em agosto de 1822 quando d. Pedro, então nomeado príncipe regente do Brasil, após a partida da Família Real para Lisboa, e sua comitiva, chegaram a cidade de São Paulo devido aos distúrbios causados pela Bernada de Francisco Inácio.

Nesta época Domitila buscava se divorciar do marido, o alfares Felício Pinto Coelho de Mendonça, que após se estabelecer com a esposa e os filhos em Minas Gerais, se mostrou um homem agressivo, que batia em Domitila, enquanto gastava o dinheiro da família em jogos e bebedeiras.

Cansada da situação Domitila tomou uma decisão incomum para a época, pegou seus filhos, seus poucos pertencentes e tratou de voltar para São Paulo onde, por milagre, foi recebida de volta pela família, que também não passava por uma situação muito boa.

Nesse período o pai de Domitila, o tenente-coronel João de Castro, apesar de ter solicitado sua reforma do exército em abril de 1822, estava há meses sem receber o seu soldo, o que atualmente chamamos de salário, assim como a maioria dos militares portugueses.

Agora haviam mais dois problemas: o divórcio de Domitila e a guarda de seus dois filhos: Francisca e Felício. Porém, a vinda de d. Pedro a cidade representava uma oportunidade de sanar os problemas familiares, já que um dos acompanhantes de d. Pedro era Francisco de Castro, irmão de Domitila.

Existem duas versões para o primeiro encontro de Domitila e d. Pedro. A primeira afirma que ele a conheceu durante um passeio de liteira e a segunda que ambos foram apresentados por Francisco na residência da família Castro, a Chácara dos Ingleses, no bairro da Liberdade, próximo ao cemitério dos Aflitos.

De qualquer maneira, foi amor a primeira vista. Na época Domitila tinha 25 anos, sendo um ano mais mais velha que o príncipe. Embora o conceito de beleza varie de acordo com a época podemos descrever a jovem como atraente e divertida, apesar de todas as dificuldades pelas quais havia passado.

D. Pedro, por sua vez, era um homem de porte atlético, bronzeado e amante de cavalgadas e banhos de mar. Dono de um gênio impetuoso seu humor variava com frequência, mas de maneira geral era um homem simpático e preocupado com os problemas alheios. Não era incomum o encontrar conversando com plebeus.

De acordo com as cartas que d. Pedro enviou a Domitila o caso amoroso teve início em 29 de agosto, sendo está a primeira das muitas noites que passaram juntos. Em 7 de setembro o príncipe proclamou a Independência do Brasil, e após uma semana regressou a capital deixando a amante grávida.

A partir de então o imperador se dedicou aos assuntos de Estado, mas voltou a dar atenção a Domitila em novembro, após a sua aclamação. Enquanto isso parte da família Castro já se encontrava no Rio de Janeiro. Francisco de Castro e seu pai João de Castro e o seu cunhado Boaventura Delfim Pereira acompanharam d. Pedro.

Especula-se que finalmente em maio de 1823 Domitila tenha se estabelecido na capital. Estava acompanhada de sua mãe Escolástica e de seus dois filhos, que inclusive tiveram sua educação custeada pelo imperador. A partir de então a vida da paulista mudou radicalmente.

Quando Domitila chegou ao Rio de Janeiro sua irmã Maria Benedita estava grávida. Domitila não sabia, mas a criança era fruto dos amores de d. Pedro com sua própria irmã. O menino seria batizado como Rodrigo Delfim Pereira e nasceria no final daquele ano.

Porém, engana-se quem pensa que a vida de Domitila seria fácil. Além de se adaptar as novidades ela encontrou um poderoso inimigo em José Bonifácio. O santista e seus irmãos Martim Francisco e Antônio Carlos a responsabilizaram pelo fim das investigações em torno da Bernada de Francisco Inácio.

Não sabemos se Domitila interteceu diante do imperador em favor de seus conterrâneos, que impediram Martim Francisco de tornar-se governador da província de São Paulo, criando assim uma contenda política. Mas sabemos que ela sofreu duas grandes humilhações quando passou a fazer parte da corte.

Em setembro de 1824, da mesma maneira que é representado na novela Novo Mundo, Domitila foi barrada na entrada do Teatrinho Constitucional São Pedro. O motivo? Apenas pessoas com convites especiais e associados ao estabelecimento tinham o direito de entrar. Porém, este não o caso de Domitila.

Em represália d. Pedro mandou que Teatrinho fosse fechado. Os artistas foram despejados e seus trajes e cenários foram queimados. Logo depois Domitila assistiu a missa sozinha na Capela Imperial, pois das damas se sentiram insultadas com sua presença e saíram.

Em abril de 1825 Domitila foi nomeada dama camarista de d. Leopoldina, que segundo os relatos contemporâneos se comportou de maneira serena ao se confrontar com a amante do marido. Quando Domitila beijou sua mão a imperatriz permaneceu sossegada.

A partir de então a ascensão de Domitila foi meteórica. Com o cargo de dama camarista ela passou a frequentar a Quinta da Boa Vista pelo menos uma semana por mês e acompanhava a imperatriz em todos os lugares, tendo um lugar de honra após os imperadores em ocasiões públicas.

Em outubro de 1825 Domitila feita viscondessa de Santos. Logo depois teve o título elevado a marquesa. No início de 1826 acompanhou a corte em sua viagem a Bahia. Apesar de não ser bem vista pela população recebeu um excelente tratamento.

Ainda em 1826, Domitila recebeu de presente do imperador a Casa Amarela, uma mansão em estilo neoclássico, que ficava próxima da Quinta. Anteriormente ela estava instalada num casarão em Mata-Porcos. Na nova residência passou a receber membros da corte e diplomatas.

É inegável: Domitila lucrou muito com o seu caso com o imperador. Recebeu de presentes joias, vestidos requintados, uma mansão e o seu salário como servidora da imperatriz era invejável. Recebia 60 mil-reis por mês.

É importante frisarmos um fato. Domitila foi a amante mais duradoura de d. Pedro, mas nunca foi a única. A sua rival mais importante foi a francesa Adéle Bonplad, uma jovem de traços delicados que era esposa de um naturalista. Porém, o caso foi passageiro e Adéle logo foi descartada.

Em dezembro de 1826 d. Leopoldina faleceu devido a uma infecção generalizada. Acusando a favorita de envenenar a soberana a população carioca revoltada apedrejou a casa de Domitila. O seu cunhado também foi alvejado por um tiro na ocasião.

Temendo pela própria vida Domitila escreveu cartas implorando pela volta do imperador que estava no Rio Grande do Sul, cuidando dos esforços da Guerra da Cisplatina. Porém, está não foi a primeira confusão na qual a marquesa se viu envolvida.

Em agosto de 1827, a carruagem de sua irmã Maria Benedita foi atingida por dois tiros na ladeira da Glória. Todos acusaram Domitila de tentar matar a irmã, pelo fato das duas não se darem bem. Conta-se que Domitila tinha ciúmes de d. Pedro com Benedita.

Especula-se que nesta época Domitila tenha descoberto a verdade sobre paternidade de Rodrigo Delfim Pereira. Por um momento o imperador chegou a decretar o exílio da amada acreditando em sua culpa, mas acabou voltando atrás, convencido de sua inocência.

Todavia, a relação já havia esfriado. O d. Pedro, que outrora ficava com uma luneta apontada para o palacete da amante vigiando o movimento em sua residência, por ciúmes, agora mantinha uma postura mais distante.

Em 1829 o imperador tomou uma decisão drástica; buscaria uma noiva na Europa. O encarregado das negociações foi o Marquês de Barbacena. Diversas pretendentes recusaram o pedido de casamento temendo receber o mesmo tratamento que d. Leopoldina.

Para melhorar a sua imagem d. Pedro em setembro do mesmo ano demitiu a mãe e a irmã de Domitila de seus cargos como damas do paço, enquanto os homens da família, com exceção de Francisco que já estava em São Paulo, deveriam ir para a Cisplatina.

Domitila, resistiu em deixar a corte, mas cedeu. Após um breve período em sua terra natal ela acabou voltando para a corte, em maio de 1830, a pedido do próprio imperador. Passaram um breve período juntos, e ela novamente retornou a São Paulo.

O seu triunfo foi curto. Apesar de muitos chegaram a especular que Domitila se tornaria imperatriz, d. Pedro surpreendeu a todos. A exilou e se casou novamente. Ele morreria na Europa em 1834. Domitila viveria mais 33 anos.

Fontes:

GOMES, Laurentino. 1822: Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado. 1°. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 2010.r que arquitetou a Independência do Brasil. 1° ed. São Paulo: Leya, 2017.

REZZUTTI, Paulo. Domitila: a verdadeira história da marquesa de Santos. 2° ed. São Paulo: Geração Editorial, 2017.

PRIORE, Mary del. A carne e o sangue. A imperatriz D. Leopoldina, D. Pedro e Domitila, a marquesa de Santos. 1°ed. Rio de
Janeiro: Rocco, 2012.

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